A passagem do Cruzador Itália pelo porto de Santos e a Missão Comercial Italiana em 1924

Em 14 de abril de 1924, o porto de Santos recebeu o cruzador Itália, navio da Real Marinha Italiana que integrava a chamada Crociera Italiana nell’America Latina, uma missão de caráter diplomático, comercial e cultural promovida pelo governo do rei Vittorio Emanuele III. A escala santista inseriu-se em um amplo roteiro pela América do Sul, com o objetivo de apresentar aos países latino-americanos a capacidade industrial, artística e tecnológica da Itália do pós-guerra, além de fortalecer relações comerciais com centros estratégicos, entre os quais Santos ocupava posição de destaque por sua centralidade no comércio exportador brasileiro, especialmente do café.

O Itália, antigo vapor alemão Moltke, incorporado à frota italiana após a Primeira Guerra Mundial, foi profundamente adaptado para cumprir sua nova função. Com deslocamento de cerca de 22 mil toneladas, 160 metros de comprimento e 18 metros de largura, o navio trazia uma guarnição de aproximadamente 50 oficiais e 400 marinheiros, sob o comando do comissário especial Carlo Grenet, oficial com destacada atuação durante o conflito europeu. A embarcação foi transformada em um verdadeiro museu flutuante, abrigando uma extensa exposição industrial e artística distribuída por dezessete grandes salões, totalizando cerca de 3.000 metros quadrados de área expositiva.

A exposição instalada a bordo do Itália reunia produtos de mais de quatrocentas casas industriais italianas, organizados em vinte e cinco grupos temáticos que abrangiam desde matérias-primas, produtos alimentares, têxteis, automóveis, eletrotécnica e máquinas industriais, até artes gráficas, instrumentos científicos, perfumaria, indústrias artísticas e objetos de arte. Paralelamente ao caráter comercial, a mostra apresentava um recorte significativo da produção artística italiana, com obras de renomados artistas como Previati, Segantini, Fontanesi, Carrena e Gola, além de esculturas de Bistolfi, Zanelli, Dazzi e outros. A curadoria artística coube ao escultor Leonardo Bistolfi, senador do Reino, responsável também pelo desenho da medalha comemorativa do cruzeiro.

A missão era chefiada pelo embaixador especial Giovanni Giuriati, enviado oficialmente pelo governo italiano como representante do Estado junto aos países visitados. Giuriati era figura de relevo no cenário político italiano, tendo participado ativamente da Primeira Guerra Mundial como oficial do Exército, além de integrar o círculo político ligado a Gabriele D’Annunzio e, posteriormente, ao governo de Benito Mussolini. À frente da delegação, Giuriati tinha a incumbência de conferir peso diplomático à missão e de reforçar o caráter oficial da iniciativa, que buscava tanto a expansão de mercados quanto a reafirmação do vínculo cultural com as comunidades italianas estabelecidas na América Latina.

Além do embaixador especial, integravam a comissão oficial personalidades como o senador Silvio Pallerano, presidente da comissão autônoma da Crociera Italiana; o comendador Alberto Passigli, comissário da Indústria; o capitão Eugenio Coselchi, responsável pela área cultural; e o artista Aristide Sartorio, comissário de Arte. O navio também transportava representantes da imprensa italiana, enviados de importantes jornais da península, encarregados de registrar e divulgar a missão ao público europeu, bem como uma missão militar composta por oficiais do Exército italiano.


Giovanni Giuriati (de gravata borboleta) e em evento no Rio de Janeiro

Durante a permanência do Itália em Santos, um dos pontos altos da agenda oficial foi a visita da Missão Comercial Italiana à Associação Comercial de Santos, realizada em 15 de abril de 1924, no edifício da Bolsa Oficial de Café. A recepção ocorreu no grande salão da Bolsa e reuniu dirigentes da Associação Comercial, representantes da Bolsa de Café, autoridades locais, corretores e membros do alto comércio santista, além de familiares e convidados que acompanharam a solenidade das galerias.

A delegação italiana foi recebida por representantes da diretoria da Associação Comercial de Santos, entre eles Roberto Nioac, vice-presidente; Alberto Baccarat, primeiro secretário; Oscar Leite Ribeiro de Faria, segundo secretário; Jovino de Faria, sócio-diretor; e Agenor Silveira, diretor da secretaria, além do deputado A. S. Azevedo Júnior e do secretário da Bolsa Oficial de Café, Albano de Oliveira Camargo. O embaixador Giovanni Giuriati ocupou lugar de destaque no salão, ladeado pelo comandante Paolo Catani e por dirigentes da Associação.

Durante a recepção, foi oferecida uma taça de champagne aos visitantes, ocasião em que Oscar Leite Ribeiro de Faria, falando em nome da Associação Comercial de Santos, destacou a importância da cidade como principal praça exportadora do Brasil e maior empório cafeeiro do mundo, ressaltando o significado da visita como expressão do intercâmbio entre dois povos ligados por intensas relações comerciais e humanas. Em resposta, Giovanni Giuriati enfatizou que o comércio não deveria ser visto apenas sob o prisma do lucro, mas também como instrumento de aproximação cultural e política entre as nações, manifestando votos de prosperidade ao comércio santista e à cidade de Santos.

Encerrada a solenidade, os membros da missão percorreram as dependências da Bolsa Oficial de Café, incluindo a torre do edifício, de onde puderam observar o panorama urbano da cidade. Na secretaria da Bolsa, deixaram suas assinaturas no livro de visitas da Associação Comercial de Santos, registrando oficialmente a passagem da delegação italiana pela instituição. Assinaram o livro, entre outros, o ministro Giovanni Giuriati, seu secretário Mário Cipolato, o comandante do Itália, Paolo Catani, e Augusto Marinangelli. Ao final, os visitantes receberam um álbum artístico da Bolsa de Café e foram acompanhados até a saída sob manifestações de cordialidade, com vivas dirigidos ao Brasil e à Itália.

A escala do Cruzador Itália em Santos, e particularmente a visita oficial à Associação Comercial, consolidou-se como um dos episódios mais significativos da presença italiana na cidade durante a década de 1920. O evento reforçou os laços comerciais entre a Itália e o principal porto do Brasil, evidenciando o papel estratégico de Santos no comércio internacional e sua inserção nas grandes articulações econômicas e diplomáticas do período.

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