Após o desmoronamento de março de 1928, a ACS assumiu papel central na mobilização solidária, articulando socorro, arrecadação e apoio institucional em um dos momentos mais dramáticos da história de Santos.
A manhã de 10 de março de 1928 amanheceu sob o peso de dias sucessivos de chuvas intensas, que haviam encharcado o solo do Monte Serrat e fragilizado suas encostas. Na madrugada, um grande bloco de terra cedeu, provocando um estrondo que rompeu o morro e abalou profundamente a cidade de Santos, soterrando casas humildes ao sopé da elevação, ceifando dezenas de vidas e lançando sobre a população um sentimento coletivo de consternação, medo e luto. A catástrofe do Monte Serrat inscreveu-se, desde então, como uma das mais dolorosas páginas da história santista.
Diante da brutalidade do acontecimento, a Associação Comercial de Santos não se furtara ao seu dever cívico e institucional. Logo nas primeiras horas após a confirmação do desastre, seus diretores mobilizaram-se com presteza, buscando contato direto com as autoridades responsáveis pela coordenação dos socorros. Adalberto Leme Ferreira e Luiz Pontes Bueno dirigiram-se pessoalmente ao delegado regional de polícia, Dr. Armando Ferreira da Rosa, com o propósito de colocar à disposição da cidade e das vítimas todo o concurso da Associação. Ainda que as circunstâncias do momento impedissem o encontro imediato, o gesto não se perdera: a entidade formalizou seu oferecimento por ofício, reafirmando, com clareza e firmeza, a disposição de cooperar amplamente nos esforços de assistência, reparação e prevenção de novos riscos.
Mais do que palavras de solidariedade, a Associação Comercial transformou sua comoção em ação concreta. A diretoria rapidamente deliberou a abertura de uma subscrição pública em favor da Santa Casa de Misericórdia, iniciada com expressiva contribuição da própria entidade, que simbolizava um grande apoio financeiro. Em meio à incerteza quanto às reais proporções da tragédia, a Associação compreendera que sua atuação não poderia limitar-se a um gesto isolado. Em sessão extraordinária, suspensa em sinal de pesar, seus membros reafirmaram o compromisso histórico da instituição com a cidade, ampliando sua intervenção por meio da criação de comissões específicas, destinadas tanto à arrecadação de donativos quanto ao acompanhamento atento dos trabalhos de desentulho, exumação, assistência pública e vigilância das áreas ainda ameaçadas por novos desmoronamentos.
A sede da ACS convertera-se, naquele momento crítico, em espaço de articulação cívica e de diálogo institucional. Ali compareceram o vice-prefeito em exercício e o provedor da Santa Casa (que, na época, estava instalada no sopé do Monte Serrat), trazendo informações detalhadas sobre o andamento das operações e recebendo, em contrapartida, a manifestação inequívoca de confiança e apoio da entidade representativa do comércio santista. A Associação assumiu de maneira firme o papel de elo entre o poder público, as instituições assistenciais e a sociedade civil, reforçando a coesão da cidade em torno de um esforço comum de superação da calamidade.
O alcance dessa mobilização ultrapassou rapidamente os limites do município. Telegramas e mensagens de pesar chegaram de todas as partes do Brasil e do exterior, endereçados à Associação Comercial de Santos como representante legítima da cidade enlutada. Câmaras de comércio, associações congêneres, entidades empresariais e figuras públicas expressaram solidariedade e consternação, reconhecendo na Associação um verdadeiro pilar da vida social santista. A comoção nacional e internacional refletia, ao mesmo tempo, a gravidade da tragédia e o prestígio da entidade que centralizara as manifestações de apoio.
Enquanto as mensagens se acumulavam, a subscrição avançava com notável rapidez. Em poucos dias, os valores arrecadados atingiram cifras expressivas, revelando a generosidade do comércio, das empresas, dos trabalhadores e dos cidadãos comuns. À frente da comissão encarregada da arrecadação, o corretor de café e membro da ACS, Francisco da Costa Pires, percorreu estabelecimentos, associações e residências, colhendo contribuições que representavam gestos de empatia e responsabilidade coletiva. A Associação Comercial coordenara esse esforço com rigor e transparência, assegurando que cada valor fosse devidamente destinado à Santa Casa de Misericórdia, instituição que simbolizava, naquele momento, o coração do socorro aos feridos e desabrigados.
Ao final do processo, a subscrição alcançara a expressiva soma de um milhão e setecentos contos de réis (o equivalente hoje a cerca de R$ 50 mil), valor que fora integralmente repassado à Santa Casa, com registros bancários e documentação formal. O gesto não passara despercebido. Em reconhecimento à atuação decisiva da Associação Comercial de Santos, a Mesa da Assembleia Geral da Santa Casa deliberara dar o nome da entidade a uma de suas principais enfermarias, eternizando, no espaço físico do hospital, a memória da solidariedade organizada que se manifestara em um dos momentos mais sombrios da história da cidade.

TELEGRAMAS RECEBIDOS
A Associação Comercial recebeu, entre outras, as seguintes manifestações de pesar:
“Paris, 12 — Profundamente consternados pela terrível catástrofe ocorrida nessa cidade, queiram aceitar nossos sentimentos de pesar e da mais viva simpatia. — Joseph Danon & Cie.”
“Havre, 12 — Os membros deste Sindicato, grandemente compungidos pelo terrível acidente que acaba de enlutar essa cidade, pedem a v. exas. aceitar suas mais sinceras condolências. — Sauquyet, presidente do Sindicato do Comércio de Cafés.”
“Recife, 12 — Aceite expressão nossa solidariedade pela dolorosa catástrofe que enlutou cidade e quiçá todo o Brasil. — Associação Comercial de Pernambuco.”
“Rio, 12 — Solidário comércio dessa cidade, lamento horrível desastre.” — Affonso Viseu.
“Poços de Caldas, 12 — Bastante condoído desastre Monte Serrat, peço em meu nome concorrer cinco contos auxílio vítimas. — Augusto Bulle.”
“Rio, 12 — Diretoria Associação Comercial do Rio de Janeiro apresenta a v. exa. manifestação de seu profundo pesar pela catástrofe Monte Serrat. — Alfredo Mayrink Veiga, presidente; Júlio da Silva Araújo, 1º secretário.”
“São Paulo, 12 — Associação Comercial de São Paulo apresenta expressão de seu profundo pesar pela catástrofe aí ocorrida. — Diretoria.”
“Lages, 12 — Profundamente impressionada pela catástrofe dessa praça, Associação local interpreta seu pesar a essa digna coirmã, fechando portas hoje. Atenciosas saudações. — João Cruz Junior, presidente.”
“São Paulo, 13 — Creia que sinceramente deploro imenso desastre que enluta laboriosa e nobre família santista. — Brasílio Jafet.”
“São Paulo, 13 — Profundamente consternado, lamento a grande hecatombe que tantas vidas ceifou. — Nagib Jafet.”
“São Paulo, 14 — Dr. Alberto Cintra, Presidente Associação Comercial Santos. — A Sociedade Rural Brasileira exprime a v. s. seu intenso pesar pela catástrofe que enlutou laboriosa população desse grande empório marítimo. Saudações atenciosas. — Figueira de Mello, presidente.”
“Varginha, 14 — Expressamos, por intermédio dessa Associação, nossos sentimentos de profundo pesar pela lamentável catástrofe do desabamento do Monte Serrat. — Associação Comercial de Varginha.”
“Passa Quatro, 14 — Associação Comercial de Passa Quatro apresenta profundos sentimentos pela horrível catástrofe. — Júlio Regner, presidente.”
“Rio, 14 — Centro de Droguistas do Rio de Janeiro, solidário ao sofrimento da laboriosa população santista, exprime grande consternação causada pelo enorme desastre do desabamento do Monte Serrat. — Legey, presidente; Michelet, secretário.”
“Rio, 14 — Liga do Comércio do Rio apresenta à nobre congênere expressão de seu profundo pesar. — Luiz Moraes, presidente.”
“Bahia, 14 — Reunida em primeira sessão após a lamentável catástrofe ocorrida aí, a diretoria desta Associação aprovou unanimemente que transmitíssemos a v. exa. sinceras condolências por tão doloroso acontecimento, que enlutou a alma nacional. Cordiais saudações. — Doutor Augusto Valente, presidente; Carlos Silva, secretário.”
“Rio, 14 — Nº 36 — Lamento sinceramente a catástrofe que enluta grande cidade à qual estou ligado por laços de imperecível simpatia. — Almirante Penido, chefe do Estado-Maior da Armada.”
“São Paulo, 14 — Diretoria da Bolsa de Mercadorias de São Paulo transmite aos distintos membros dessa Associação seu grande pesar pela dolorosa ocorrência do desmoronamento do Monte Serrat, que tanto feriu e enlutou a alma brasileira. — Rocha Azevedo, presidente em exercício.”
“Paris, 15 — Presidente da Associação Comercial. — Santos. — Lamentando o horrível desastre causado pelo desabamento dos rochedos do Monte Serrat, a diretoria da Câmara de Comércio Franco-Brasileira, reunida hoje, roga aceitar seus profundos pêsames, pedindo seja nosso intérprete junto ao prefeito da cidade de Santos. — Hubert Giraud, presidente.”
“Garanhuns (Pernambuco), 15 — Em nome da Associação Comercial de Garanhuns, apresento a v. exa. sentidas condolências pela horrível catástrofe. — Bernardino Guimarães, presidente.”
“Rio, 15 — Centro Industrial do Brasil, grandemente consternado ante a contristadora desgraça que feriu a laboriosa população santista, ocasionada pelo desabamento do Monte Serrat, apresenta a essa ilustre Associação sentimentos de profundo pesar. — Francisco de Oliveira Passos, presidente.”
“Recreio (Minas), 15 — Consternados pela imensa dor, apresentamos condolências. — Associação Comercial.”
“Taquaritinga, 15 — Centro do Comércio e Indústria de Taquaritinga pede interpretar junto ao prefeito e ao provedor da Santa Casa sua dor profunda pela lamentável catástrofe que enluta a alma paulista. — Cavalieri, presidente.”
“Jahú, 15 — Associação Comercial de Jahú, consternada pela grande catástrofe do Monte Serrat, em seu nome e no das classes conservadoras desta zona transmite-lhe sentidas condolências. Nesta data iniciamos subscrição pró-Santa Casa dessa cidade. Atenciosas saudações. — Carlos Cesar, presidente.”
“Rio Claro, 15 — Associação Comercial de Rio Claro, irmanada na dor do triste acontecimento do desastre do Monte Serrat, sente com essa coletividade o golpe inesperado causador de vítimas inocentes, associando-se ao sentimento geral, hipotecando completa solidariedade à nobre coirmã, apresentando condolências. — Caetano Pezzotti, secretário; Humberto Cartolano, presidente.”
“Belém, 16 — Associação Comercial do Pará, acompanhando a operosa população santista no movimento doloroso que atravessa, apresenta sentimentos à ilustre coirmã pela horrível catástrofe do Monte Serrat, que enlutou todo o povo brasileiro. — Manassés Bensimon, presidente.”
“Rio Grande, 16 — Câmara de Comércio apresenta a essa coirmã testemunho de solidariedade e grande pesar pelo trágico acontecimento do Monte Serrat, pedindo tornar suas condolências extensivas à população de Santos e à pessoa de seu ilustre prefeito. — Mendes Filho, presidente; Werneck Filho, secretário.”
“Belo Horizonte, 16 — Em nome da Associação Comercial de Minas apresento ao nobre colega expressão de sincero pesar pela catástrofe que enluta o glorioso Estado de São Paulo. — Lauro Jacques, presidente.”
“São João da Boa Vista, 16 — Sinceramente acompanhamos a dor da catástrofe do Monte Serrat, que enluta a bela cidade de Santos e todo o país. Associação Comercial de São João da Boa Vista. — Roque Tigre, secretário.”
“Campina Grande, 16 — Associação Comercial de Campina Grande apresenta a essa congênere condolências pela catástrofe que tem enlutado o povo santista, tornando extensivos seus sentimentos a todas as classes dessa grandiosa cidade. — Demóstenes Barbosa, presidente.”
“Botucatu, 11 de março de 1928. — Exmos. srs. diretores da Associação Comercial. — Santos. — A Associação Comercial de Botucatu vem compartilhar dolorosamente, com a prezada coirmã, da horrível catástrofe da Serra do Monte Serrat, que enlutou a próspera e bela cidade de Santos.
Queiram v. exas. aceitar os nossos sinceros pêsames e transmiti-los aos ilustres edis da Câmara Municipal, bem como os nossos protestos de estima, respeito e solidariedade ao bondoso povo santista. — José Bonifácio Arruda, presidente; M. Almeida, 1º secretário.”
“Centro do Comércio, Indústria e Lavoura de Rezende. — Rezende, 13 de março de 1928. — Ilmo. sr. presidente da Associação Comercial de Santos. Venho pelo presente, em nome de todos os nossos associados, trazer-vos o nosso sentimento de solidariedade no doloroso transe por que passa a população dessa próspera cidade, que se acha enlutada.
Afetuosas saudações. — Raphael Antonio de Andrade, presidente.”
“Rio de Janeiro, 15 de março de 1928. — Exmo. sr. presidente da Associação Comercial de Santos. — Santos. — O Centro do Comércio de Café do Rio de Janeiro, por sua diretoria, que ora se reúne pela primeira vez depois da terrível catástrofe que enlutou a sociedade santista, apresenta-vos as suas condolências mais sentidas, associando-se com a mais estreita solidariedade ao sofrimento que oprime a toda a população dessa grande cidade.
Todo o Comércio de Café desta cidade acompanha com o mais vivo e profundo interesse e lamenta as notícias que daí são transmitidas, informando das dolorosas consequências que já se têm verificado e da triste perspectiva que continua a afligir o povo de Santos.
Com os protestos da maior estima, subscrevemo-nos. — Galeno Gomes, presidente; J. Hamann, secretário; Júlio Vieira de Mello, tesoureiro.”
“Creia, com a maior sinceridade, no meu profundo pesar pela trágica ocorrência de Santos. — Arthur Bittencourt. — São Paulo, 13-3-28.”
“Exmo. sr. doutor presidente da Associação Comercial. — Santos. — Acompanho v. exa. na grande dor da alma paulista, enlutada pelo grande desastre do Monte Serrat, que feriu os nossos nobres irmãos santistas. — Targina Ferraz do Amaral. — Guaiçara (Noroeste), 13-3-1928.”