Quando Santos ergueu a voz contra Havana

    Em 1937, diante da ameaça à exportação dos chamados “cafés baixos”, a Associação Comercial de Santos assumiu o protagonismo na defesa da economia cafeeira brasileira e interpelou diretamente o presidente Getúlio Vargas.

    Em agosto de 1937, quando as notícias da Segunda Conferência Pan-Americana do Café ocorrida em Havana, Cuba, chegaram a Santos pelas páginas da imprensa, a inquietação percorreu armazéns, escritórios e corredores do comércio cafeeiro como um vento súbito que prenunciava tempestade. Discutia-se, entre representantes dos países produtores, a adoção de diretrizes continentais para a política do produto, entre elas a proibição da exportação dos chamados “cafés baixos”, grãos de qualidade inferior que ainda encontravam colocação no mercado internacional. Para muitos, tratava-se de medida saneadora, destinada a valorizar o produto e conter a superoferta mundial. Para a praça de Santos, porém, aquilo soou como ameaça concreta à sobrevivência de um sistema econômico já castigado pela crise da década de 1930. E foi nesse momento que a Associação Comercial de Santos assumiu o papel que a história tantas vezes lhe reservara: o de porta-voz vigilante dos interesses locais diante das decisões tomadas longe do cais santista.

    Santos não era somente um porto; era o coração por onde pulsava o sangue do café brasileiro. A cidade vivia do embarque, da classificação, da intermediação e do crédito ligado ao grão que sustentava o país. A Associação Comercial havia se consolidado como tribuna respeitada, capaz de articular exportadores, comissários e lavradores em torno de uma pauta comum. Ao tomar conhecimento das deliberações discutidas em Havana, a entidade não hesitou. Reuniu-se com o Centro dos Exportadores e com o Centro dos Comissários de Café e, em gesto coordenado, dirigiu telegramas urgentes ao presidente Getúlio Vargas e ao ministro da Fazenda, Arthur de Souza Costa. A linguagem era firme, mas revestida da formalidade institucional própria da época. Solicitava-se que a delegação brasileira não assumisse compromissos que não garantissem equitativa distribuição de sacrifícios entre todos os países produtores e que se evitasse a execução de uma resolução considerada lesiva aos interesses da lavoura e do comércio nacional.

    A preocupação era concreta. O Brasil já restringira a exportação de determinados tipos de café como parte de sua política interna de valorização. Uma nova proibição, agora de alcance internacional, poderia abrir espaço para concorrentes da Ásia e da África ocuparem fatias de mercado historicamente abastecidas pelo produto brasileiro. O que se apresentava como medida de disciplina comercial poderia converter-se, na prática, em perda de competitividade para o maior produtor mundial. A Associação Comercial percebera que, sob o discurso de uniformização e qualidade, escondia-se o risco de deslocamento geoeconômico. Por isso, defendia que, se sacrifícios fossem inevitáveis, deveriam ser compartilhados de maneira justa entre todos os países interessados.

    Getúlio Vargas lendo o telegrama enviado pela Associação Comercial, em 1937. Gerado por IA.

    O gesto da Associação não foi mero protesto episódico. Ele reafirmou a tradição santista de participação ativa nos grandes debates econômicos nacionais. Ao interpelar diretamente o chefe da República, a entidade demonstrava não apenas influência política, mas consciência de seu papel histórico. Desde o Império, a praça de Santos aprendera que as decisões tomadas em gabinetes distantes repercutiam imediatamente nos trapiches, nas casas exportadoras e nos lares que dependiam do café. Em 1937, às vésperas do Estado Novo, quando o país vivia clima de centralização crescente do poder, a voz da Associação Comercial ergueu-se como expressão organizada da sociedade civil econômica.

    A memória desse episódio revela mais do que uma divergência técnica sobre classificação de grãos. Ela expõe a tensão permanente entre regulação internacional e autonomia nacional, entre política macroeconômica e realidade local. E mostra que Santos, por meio de sua Associação Comercial, não permaneceu passiva diante das decisões que afetavam seu destino. Ao contrário, posicionou-se com clareza, articulou-se com outras entidades e buscou influenciar os rumos da política cafeeira brasileira.

    Assim, naquele agosto de 1937, enquanto se discutia em Havana o futuro do café continental, foi em Santos que se afirmou uma defesa decidida do interesse econômico brasileiro. A Associação Comercial protagonizou o movimento, transformando telegramas em instrumentos de pressão legítima e reafirmando sua vocação histórica de guardiã do comércio santista. A cidade que vivia do café não silenciou; fez-se ouvir.

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