A reação da ACS e a retomada das exportações de café

Diante da crise iniciada em 1986, a Associação Comercial de Santos mobilizou o setor, pressionou o governo federal e contribuiu para a definição de medidas que destravaram as exportações de café no início de 1987

Em 1986, o setor cafeeiro brasileiro enfrentava dificuldades decorrentes da perda de competitividade do café nacional no mercado internacional, o que resultou na retração de mercados consumidores tradicionais. Tal cenário acabou se prolongando para o início de 1987, agravado pela demora das autoridades responsáveis em definir e divulgar as diretrizes da política de exportação do café verde.

Diante desse contexto, a Associação Comercial de Santos (ACS) assumiu uma posição ativa na defesa dos interesses do setor. Assim, em fins de 1986, a entidade organizou a publicação de uma página inteira em jornais de circulação nacional, na qual divulgou, na íntegra, o conteúdo de um telex enviado ao então presidente da República, José Sarney. No documento, a ACS manifestava formalmente sua insatisfação com a condução das políticas cafeeiras e cobrou providências imediatas por parte do governo federal.

A iniciativa teve ampla repercussão. Diversas entidades representativas da economia cafeeira encaminharam manifestações de apoio à ACS, tanto por correspondência quanto por contatos telefônicos. A mobilização articulada pela entidade contribuiu para dar visibilidade às demandas do setor e pressionar as autoridades competentes.

No dia seguinte à divulgação do protesto, o Instituto Brasileiro do Café (IBC) anunciou a fórmula de cálculo do preço mínimo de registro de exportação, medida que permitiu a retomada das operações comerciais. Esse desdobramento evidenciou a eficácia da atuação da Associação Comercial de Santos, que, ao vocalizar as demandas dos exportadores, desempenhou papel relevante na aceleração de decisões governamentais consideradas urgentes para a normalização das exportações de café verde.

TEXTO DA CARTA

CAFÉ:
AS INJUSTIFICÁVEIS PERDAS PARA A NAÇÃO

EXMO. SR.
DR. JOSÉ SARNEY
DD PRESIDENTE DA REPÚBLICA
BRASÍLIA

A Associação Comercial de Santos, representando o maior porto de exportação de café do País, após reunião realizada nesta data, vem alertar a V.Excia. sobre a gravidade da situação em que se colocou o produto, com prejuízos para toda a Nação, em face da profunda queda nos seus volumes de venda e de receita em 1986 e a inexistência, até este momento, de definições sobre a política de comercialização para 1987.

Deparam-se os vários segmentos da cafeicultura nacional, em razão da falta de demanda do café brasileiro a nível internacional, com um quadro asfixiante, incompatível com a posição do Brasil nos mercados de consumo, os quais seus tradicionais clientes hoje suprem-se em larga escala com o produto de outras origens.

Os exportadores que esta entidade representa já esgotaram todos os argumentos técnicos dirigidos a tempo às autoridades cafeeiras, sem que fossem levados à prática, o que significaria a permanente competitividade do café brasileiro. Assim, por um princípio patriótico, dirigem-se em extremo a V.Excia. para terem condições de trabalho, cujas repercussões interessam sobremodo à balança comercial do País e à área de produção, que assiste a penosas baixas no valor de sua mercadoria sem a ocorrência de vendas e onerada com juros insuportáveis praticados no mercado financeiro.

Acresce apontar, Sr. Presidente, que o Brasil está sendo acusado pelos próprios concorrentes, como responsável pela contínua queda nos preços internacionais do grão, em face de sua indefinição que prolongada para a política de vendas de 1987.

Em tais circunstâncias, solicitamos a V.Excia. medidas urgentíssimas para que não se percam as oportunidades de venda do café brasileiro, e que se oportunize a indicação de pessoas competentes para dirigir a política do setor, a fim de que a Nação não acumule novos prejuízos para o ano entrante.

Atenciosamente,
Antonio Manoel de Carvalho
Presidente
Associação Comercial de Santos

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