A Associação Comercial de Santos na Exposição Ibero-Americana de Sevilha, em 1929

Realizada em meio à quebra da Bolsa de Nova York e aos primeiros impactos da Grande Depressão, a participação da Associação Comercial de Santos na Exposição Ibero-Americana de Sevilha revelou-se uma ação estratégica de defesa e afirmação do café brasileiro no comércio internacional.

A participação da Associação Comercial de Santos na Exposição Ibero-Americana de Sevilha, iniciada em maio de 1929 e estendida até junho de 1930, resultou de convite formal do Dr. José Vergueiro Steidel, Comissário-Geral do Brasil no certame, e desenvolveu-se em um dos momentos mais críticos da economia mundial contemporânea. O evento atravessou diretamente a ruptura do ciclo de expansão do pós-Primeira Guerra Mundial, quando a superprodução industrial e agrícola, especialmente nos Estados Unidos, o crédito fácil e a especulação financeira sustentaram, ao longo da década de 1920, uma falsa sensação de prosperidade, desmentida de forma abrupta pela quebra da Bolsa de Nova York em 24 de outubro de 1929.

A partir desse marco, instalou-se uma crise de confiança que afetou o comércio internacional, contraiu mercados consumidores, desorganizou fluxos de crédito e lançou incertezas profundas sobre os principais produtos de exportação das economias periféricas. Foi nesse contexto adverso, já sob a vigência dos primeiros impactos da Grande Depressão, que a Associação Comercial de Santos, consciente da necessidade de defender e ampliar mercados em meio à retração global, deliberou concorrer oficialmente à Exposição, assumindo a responsabilidade de organizar, em dependência própria do Pavilhão Brasileiro, uma ampla e tecnicamente estruturada representação do café brasileiro, principal produto de exportação do país e base da economia santista, reunindo para tanto uma expressiva coleção de amostras fornecidas por firmas comissárias e exportadoras de seu quadro social, bem como por governos estaduais, associações e produtores de diversas regiões cafeeiras do Brasil, numa ação deliberada de afirmação comercial em um cenário internacional em rápida transformação.

Designado como representante da entidade, o Sr. Carlos Sardinha, síndico da Bolsa de Café de Santos, partiu para a Espanha em 27 de março de 1929, a bordo do vapor Bagé, do Lloyd Brasileiro. Ao chegar a Sevilha, apresentou-se ao Comissário-Geral do Brasil, recebendo a incumbência de organizar integralmente o chamado “Estande do Café”, instalado na ala esquerda do Pavilhão Brasileiro, ocupando área de dezoito metros por oito. A inauguração oficial do pavilhão ocorreu em 10 de maio de 1929, com a presença do rei D. Afonso XIII, da rainha D. Vitória Eugênia, de membros da família real espanhola, autoridades governamentais, representantes diplomáticos e membros da colônia brasileira. A visitação pública, entretanto, foi franqueada apenas em 26 de maio, após a conclusão de todos os mostruários.

O estande estruturado pela Associação Comercial de Santos apresentou 476 amostras de café, rigorosamente classificadas e identificadas quanto à procedência, tipo e qualidade. Essas amostras provinham dos Armazéns Reguladores de Campinas, Casa Branca e Ribeirão Preto, das firmas santistas e de remessas enviadas por diversos estados produtores. O conjunto expositivo incluía ainda plantas naturais de café, modelos em cera representando as fases da cultura cafeeira, máquinas de beneficiamento em escala reduzida, torradores elétricos, moinhos, mesas de classificação e degustação, painéis fotográficos, gráficos estatísticos e uma grande tela ilustrativa sintetizando o ciclo produtivo do café, desde a fazenda até o embarque no porto de Santos.

Estande da Associação Comercial de Santos na Exposição de Sevilha em 1929

Propaganda técnica, degustação e repercussão junto ao público

Durante todo o período da Exposição, a seção de café organizada pela Associação Comercial de Santos destacou-se pela intensa atividade de propaganda técnica e educativa. Diariamente, Carlos Sardinha realizava preleções adaptadas ao perfil dos visitantes, explicando a produção, o beneficiamento, a classificação, o comércio e o consumo do café brasileiro. As demonstrações práticas do funcionamento da máquina beneficiadora permitiam ao público acompanhar, passo a passo, o preparo do café, desde o grão em coco até sua separação final por tipo, peso e tamanho.

A torração e a moagem também eram realizadas à vista dos visitantes, acompanhadas de explicações minuciosas sobre o ponto correto de torra e os prejuízos causados pelo hábito, comum na Espanha, de misturar açúcar ou outras substâncias ao café durante o processo. Amostras comparativas de café corretamente torrado e de café queimado eram expostas com legendas elucidativas em espanhol, permitindo ao público perceber claramente as diferenças de aroma, cor e sabor. Essa prática pedagógica gerou impacto imediato no consumo local, levando consumidores a exigir cafés brasileiros preparados segundo o método recomendado.

A seção de degustação, instalada em amplo salão no pavimento inferior do Pavilhão Brasileiro, tornou-se um dos espaços mais concorridos da Exposição. Diariamente eram distribuídas, em média, 1.500 xícaras de café, número que alcançava 2.000 em domingos e dias festivos. O café era servido em pequenas xícaras de porcelana com as bandeiras do Brasil e da Espanha e a inscrição “Café do Brasil”. A regularidade da torração e o cuidado no preparo garantiram uma bebida de paladar constante, aromático e intenso, amplamente elogiado pelo público e por representantes de outros países produtores. As tentativas de degustação promovidas por Colômbia e Guatemala não obtiveram êxito semelhante e foram encerradas antes do término do certame, enquanto a do café brasileiro manteve-se ininterrupta de maio a dezembro de 1929.

O Pavilhão Brasileiro foi apontado pelas estatísticas oficiais como o mais visitado da Exposição. O livro de visitantes registrou inúmeras manifestações espontâneas de apreço ao Brasil, ao café e à atuação da Associação Comercial de Santos. Entre as visitas ilustres destacaram-se as do presidente da República Portuguesa, General Carmona; da infanta D. Eugênia; do arquiduque Alberto da Áustria; e do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Sr. Morgan, que levou ao presidente da República brasileira testemunho direto da excelência da representação brasileira em Sevilha.

Resultados econômicos, reconhecimento institucional e encerramento da missão

A missão da Associação Comercial de Santos contou com apoio financeiro do Instituto do Café do Estado de São Paulo, que contribuiu com 45:000$000 para custear a permanência prolongada do representante em Sevilha. Em diversos momentos, diante da ausência de novas instruções e do esgotamento dos recursos enviados, Carlos Sardinha recorreu a recursos próprios para assegurar a continuidade da representação, evitando qualquer interrupção nos trabalhos e garantindo a conclusão digna da missão confiada pela entidade.

Entre 10 e 16 de novembro de 1929, realizou-se a Semana Brasileira, durante a qual o Pavilhão foi palco de eventos protocolares, culturais e populares. Destacaram-se a distribuição de milhares de latas de café moído com a inscrição “O café do Brasil é o melhor” e a realização de uma grande festa dedicada a crianças de asilos de Sevilha, que reuniu mais de quinhentas crianças órfãs e causou profunda comoção junto à população local. Ao final da Exposição, o Governo brasileiro cedeu o Pavilhão ao Governo espanhol para a instalação de uma escola pública, denominada Escola Brasil, com a obrigatoriedade do ensino de Geografia e História do Brasil.

Os resultados concretos da propaganda realizada pela Associação Comercial de Santos tornaram-se rapidamente mensuráveis. Dados oficiais da Bolsa de Café e da própria Associação indicaram crescimento expressivo das exportações de café do porto de Santos para a Espanha, com aumento de 190,85% entre 1928 e 1929, tendência que se manteve nos primeiros meses de 1930. Ao regressar ao Brasil, em fevereiro daquele ano, Carlos Sardinha recebeu manifestações de reconhecimento por parte de negociantes de café, que já percebiam a reativação do mercado espanhol e o aumento consistente das encomendas.

Encerrava-se, assim, a participação da Associação Comercial de Santos na Exposição de Sevilha como uma das mais bem-sucedidas ações de propaganda econômica do período, consolidando a imagem do café brasileiro no mercado ibérico e afirmando a entidade santista como protagonista na defesa e promoção dos interesses do comércio cafeeiro nacional.

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