A passagem de D. Pedro II por Santos, em 30 de setembro de 1878, integrou uma excursão imperial pela cidade e marcou a segunda visita do Imperador à Associação Comercial de Santos, assim como a segunda assinatura de seu nome no Livro de Ouro da entidade, repetindo o gesto realizado três anos antes, em 30 de agosto de 1875. Ao contrário da primeira vez, nesta, D. Pedro II esteve acompanhado de sua esposa, a Imperatriz Tereza Cristina Maria, além de numerosa comitiva, composta por autoridades civis, políticas e administrativas do Império e da Província de São Paulo.
O itinerário do dia teve início no porto de Santos, onde Suas Majestades observaram o local destinado à construção do futuro cais, projeto que mobilizava atenções do comércio local. A Associação Comercial insistia, havia anos, em sucessivos pedidos de auxílio ao Governo Imperial para viabilizar um amplo processo de melhoramentos portuários, considerado essencial para dar vazão ao crescimento das exportações, especialmente do café, e para adequar a infraestrutura do porto às exigências do comércio moderno. A presença do Imperador naquele ponto da cidade dialogava diretamente com essas reivindicações reiteradas pela entidade.
Na sequência, D. Pedro II e a Imperatriz visitaram a Companhia de Aprendizes Menores, instituição que daria origem à Escola de Aprendizes Marinheiros (atual Escola Naval da Marinha do Brasil). Suas Majestades percorreram as dependências do quartel e tomaram a refeição servida aos internos, observando de perto a rotina da formação voltada à instrução naval e disciplinar dos jovens.
Por volta de uma hora da tarde, o casal imperial dirigiu-se à Igreja Matriz, onde realizou oração, seguindo depois para o Convento do Carmo. Ali, detiveram-se diante do túmulo de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Chamava a atenção a lápide de mármore ali existente, não instalada por iniciativa oficial, mas por um simples artista de circo que, indignado com a ausência de qualquer marco funerário digno, custeou do próprio bolso a confecção da placa comemorativa, gesto que contrastava com a relevância histórica do personagem ali sepultado.
Na placa, a inscrição: “Aqui jaz o patriota da independencia do Brazil, grande e desinteressado politico, distincto cidadão, José Bonifacio de Andrada e Silva, tribuno e martyr da merito. A. C. do Carmo. Santos, 7 de Setembro de 1869 — 47 annos”.
Livro de Ouro
O roteiro prosseguiu com visitas às escolas públicas de ambos os sexos, à Câmara Municipal, à cadeia e à serraria a vapor de Thomaz de Azevedo, até alcançar a Praça do Comércio, espaço central da vida mercantil santista. Na Associação Comercial de Santos, então presidida pelo Visconde de Vergueiro, o Imperador, a Imperatriz e a comitiva foram recebidos pelos representantes do comércio local. Ao final da visita, D. Pedro II e Tereza Cristina foram convidados a assinar o Livro de Ouro da entidade, que assim estava gravado:
“Aos trinta dias do mês de setembro de mil oitocentos setenta e oito, na cidade de Santos, província de São Paulo, dignando-se S. M. o Imperador o Senhor D. Pedro Segundo honrar com sua augusta presença o salão da Associação Comercial de Santos, resolveu a Diretoria mandar lavrar a presente ata para comemorar tão fausto acontecimento, rogando a S. M. o Imperador que a honrasse com sua assinatura, ao que benevolente anuiu, assinando em seguida as pessoas presentes: D. Pedro 2º; Thereza Christina Maria; João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, Conde de Iguassú, João Pedro Carvalho de Moraes, Barão de Macaé; Antonio Moreira de Barros; Victorino José de Mattos, diretor; Victorino Gomes, entre outros”
Santa Casa
Após a visita à Praça do Comércio, Suas Majestades seguiram para a Santa Casa da Misericórdia, onde foram recebidos pelo então provedor, Francisco Antonio Rosas, e pelos mesários, ao som do Hino Nacional e de girândolas de foguetes. Na capela, fizeram oração e acompanharam a cerimônia de bênção e lançamento da primeira pedra do novo edifício hospitalar, ato formalizado em auto solene assinado pelo Imperador, pela Imperatriz e por diversas autoridades presentes. Concluídas as atividades, D. Pedro II e Tereza Cristina recolheram-se, onde ainda receberam, em despedida, a comissão da Praça do Comércio e outras personalidades. À noite, ruas e edifícios públicos e particulares foram iluminados com arcos de gás, e, na manhã seguinte, o trem imperial partiu de Santos com destino à capital paulista.