A histórica reunião em que a Associação Comercial de Santos reafirmou sua liderança na defesa do comércio cafeeiro e da igualdade entre portos
Santos vivia dias de expectativa em setembro de 1958. A visita do presidente do Instituto Brasileiro do Café, Renato Costa Lima, mobilizava o comércio local e reacendia debates que vinham inquietando a economia santista. O café, base da riqueza da cidade e razão de ser do seu porto, atravessava momento delicado, marcado por entraves burocráticos, instabilidade cambial e crescente concorrência entre portos nacionais.
Foi nesse cenário que a Associação Comercial de Santos assumiu, mais uma vez, o seu papel histórico de casa maior do comércio, abrindo suas portas para uma reunião que se tornaria determinante.
Na tarde de 17 de setembro, o auditório da Associação Comercial encheu-se como raramente se vira. Comerciantes, exportadores, corretores e dirigentes de classe ocuparam todos os espaços disponíveis. A presença maciça demonstrara que a praça estava atenta e decidida a participar ativamente dos rumos da política cafeeira nacional.
O vice-presidente da ACS em exercício, Herculio Camargo Barbosa, conduziu os trabalhos, convidando o presidente do IBC a assumir a presidência da mesa. Ao seu lado, sentaram-se figuras representativas do setor.

AUDITÓRIO DA ACS FICOU LOTADO
Defesa da igualdade entre firmas e entre portos
Desde o início dos debates, a Associação Comercial deixou claro seu ponto de vista: era indispensável restabelecer a igualdade de condições entre firmas exportadoras e entre as diversas praças do país.
Santos vinha sofrendo com a disparidade em relação a Paranaguá. Muitas firmas santistas haviam passado a operar por aquele porto, diante de diferenças de preços e condições operacionais. Tal situação representava ameaça direta à primazia histórica de Santos na exportação do café.
A diretoria da Associação já pleiteara providências antes mesmo da visita do presidente do IBC. Durante a reunião, a questão foi reafirmada com vigor. O compromisso assumido por Renato Costa Lima de buscar igualdade entre praças fora recebido com aplausos intensos, mas não como gesto de cortesia, e sim como reconhecimento de que a reivindicação nasceu, em grande parte, da atuação persistente da Associação Comercial.

A luta contra a burocracia
Outro ponto sensível dizia respeito à excessiva burocracia que dificultava a exportação. A fiscalização cambial, os processos administrativos e as exigências formais haviam criado ambiente de insegurança jurídica.
A Associação Comercial já havia manifestado sua preocupação com os processos instaurados contra exportadores em razão de diferenças de classificação e termos de responsabilidade. Quando o presidente do IBC anunciou que “não existiam mais processos na praça de Santos”, a reação fora imediata e calorosa.
A decisão representava o reconhecimento da legitimidade das reivindicações da praça santista. A Associação Comercial teve papel determinante nesse desfecho, pois insistia muito na necessidade de restaurar a tranquilidade das firmas locais.

A voz de Alceu Martins Parreira
Entre os momentos mais significativos da reunião destacara-se a intervenção de Alceu Martins Parreira, ex-presidente da Associação Comercial e figura respeitada entre os comerciantes de café.
Falando com serenidade e clareza, ele reafirmou princípios que há muito norteavam o pensamento da entidade:
• lealdade na concorrência entre exportadores;
• reforma do regime cambial;
• garantia aos importadores contra perdas decorrentes de alterações cambiais.
Sua manifestação não foi improvisada. Refletia décadas de experiência e o acúmulo institucional da Associação Comercial, que sempre defendeu a estabilidade interna como condição para a força externa do café brasileiro. Ao final, suas declarações à imprensa consolidaram a impressão de que a reunião representava um novo pacto entre o IBC e a praça santista.

Harmonia entre lavoura e comércio
A Associação Comercial também exerceu um papel conciliador entre os interesses da lavoura e os do comércio. O presidente do IBC reconheceu a necessidade de entrosamento entre o interior produtor e a praça exportadora.
Afinal, Santos não se colocava como adversária da lavoura. Ao contrário, sustentava que somente com harmonia interna o Brasil poderia manter posição firme nos mercados internacionais.
A entidade compreendeu que a disputa entre portos ou entre exportadores enfraquecia o país diante dos compradores estrangeiros. A defesa da “frente única doméstica” tornara-se bandeira central.
Uma Praça que não se calou
Ao encerrar-se a reunião, ficou evidente que a Associação Comercial de Santos, mais uma vez, foi decisiva para a resolução de um problema que prejudicava a Praça Comercial. Naquele setembro de 1958, ficou claro que, quando Santos se organizava em torno de sua Associação Comercial, sua voz ecoava muito além do cais.
