NA FOTO, CHICO E SUA FILHA, BRANCA
Pouca gente imagina, mas o maior porto da América Latina começou, simbolicamente, com uma vassoura. Quando Francisco de Paula Ribeiro chegou a Santos, ainda adolescente, a primeira coisa que colocaram nas mãos dele foi uma vassoura de varredor de armazém. Décadas depois, esse mesmo jovem seria o homem que sonhou, planejou e ajudou a construir o Porto de Santos.
Francisco de Paula Ribeiro, o Chico de Paula, era gaúcho de Pelotas, nascido em 1851, filho de pai português e mãe brasileira. Com 16 anos de idade veio para Santos em busca de oportunidades. Encontrou aqui uma cidade marcada por epidemias, dificuldades sanitárias e um porto precário, mas decidiu apostar o futuro aqui. Sua ideia e firme propósito era “arregaçar as mangas”, trabalhar, e mudar a situação financeira da família. Chico começou de forma extremamente humilde, como varredor em um armazém, e, anos mais tarde, feito homem importante da cidade, gostava de contar, com orgulho, que manejou a vassoura com consciência, até conquistar funções de maior responsabilidade. Dormia em balcões de armazém, usava um selim de cavalo como travesseiro e seguia aprendendo tudo o que podia, guiado por inteligência, esforço e caráter.
Sem ter completado os estudos formais, Chico de Paula destacou-se pela perspicácia e pela capacidade de aprender sozinho. Com 29 anos de idade, já posicionado na Praça cafeeira de Santos, conheceu e casou-se, em 15 de maio de 1880, com Maria Isabel Coutinho, que era irmã de Guilhermina Coutinho, esposa de Eduardo Palassin Guinle, o que o tornaria não apenas cunhado, mas também futuro sócio de Guinle na Companhia Docas de Santos, ao lado de Cândido Gaffrée.
Com Maria Isabel, construiu uma família numerosa, 22 filhos. Ainda que não tivesse formação acadêmica, fazia questão de educá-los pessoalmente, ensinando português, francês, inglês, matemática e música. No futuro, alguns de seus filhos galgariam posições importantes na vida pública e intelectual, como Abraão Ribeiro, que se tornaria prefeito de São Paulo; Samuel Ribeiro, figura de destaque na cidade santista, e seu neto Francisco Luiz Ribeiro, que se tornaria prefeito de Santos em 1951.
Vereador e Presidente da ACS
Na vida pública e empresarial, Chico de Paula ocupou um papel central no desenvolvimento da cidade. Foi vereador entre 1883 e 1886 e neste período, em 1885, tornou-se o terceiro presidente da Associação Comercial de Santos, cargo que exerceu defendendo a modernização do porto e o crescimento econômico do município. Visionário, foi o grande idealizador do Porto de Santos tal como o conhecemos. Acreditava-se que o futuro da cidade dependia da construção de um cais organizado, contínuo, com armazéns modernos, substituindo os antigos trapiches. Insistiu nessa ideia até convencer seu cunhado, Eduardo Guinle e o sócio dele, Cândido Gaffrée, a aderirem ao projeto. Sem recursos financeiros para entrar como sócio, participou por meio de um acordo de capital e trabalho, disponibilizando seu conhecimento, planejamento e dedicação.
Como superintendente da Companhia Docas de Santos, função que exerceu entre 1890 e 1903, Chico de Paula foi responsável direto pela construção do primeiro trecho do cais, inaugurado em 1892, marco que transformou Santos em um porto organizado, sendo este seu grande projeto de sua vida, e a missão à qual se dedicou inteiramente. Francisco de Paula Ribeiro faleceu em 1915, em São Paulo, deixando como maior herança o exemplo de caráter, trabalho e visão de futuro. Seu nome permanece vivo no Porto de Santos e em um bairro simples da Zona Noroeste, lembrando que o progresso da cidade começou com a coragem de um jovem que chegou humilde com uma vassoura e ousou sonhar grande.

MARIA ISABEL, ESPOSA DE CHICO DE PAULA