Registro do Relatório da Associação Comercial de Santos de 1876 sobre as comunicações telegráficas e seus reflexos na vida econômica da Praça.
Em 1874, Santos ainda vivia a contradição entre sua vocação natural de porto exportador e a precariedade de sua estrutura marítima. Não existia propriamente um sistema portuário organizado, mas uma sucessão de trapiches de madeira, pertencentes a proprietários diversos, espalhados ao longo da faixa que se estendia do Valongo ao Paquetá. Cada estabelecimento operava de forma independente, sem padronização técnica, sem coordenação logística e sem a infraestrutura necessária para atender ao crescente movimento de cargas. Esse quadro tornava moroso e oneroso o embarque das mercadorias, prejudicando sobretudo os interesses da elite cafeeira paulista, que naquele momento começava a consolidar sua força econômica e política no cenário imperial.
A chegada da São Paulo Railway, em 1867, alterara profundamente a dinâmica regional. A ferrovia aproximou o planalto paulista do litoral e fez crescer, de maneira exponencial, o volume de mercadorias que desciam a serra, principalmente as safras de café destinadas ao mercado externo. O porto improvisado, até então suficiente para um comércio de menor escala, revelou-se incapaz de acompanhar a nova dimensão dos negócios. Tornava-se evidente que Santos precisava deixar de ser um conjunto disperso de trapiches e transformar-se em porto moderno, apto a servir como principal canal de escoamento da riqueza brasileira.
Nascia a ACS
Foi nesse ambiente de expectativas e reivindicações que, na década de 1870, nasceu a Associação Comercial de Santos. Um grupo de empresários ligados ao comércio do café, ao lado de representantes de setores correlatos, organizou-se para pressionar o governo imperial a assumir posição clara quanto à modernização portuária. Pleiteava-se, inclusive, a abertura de concessão à iniciativa privada, visto que o Estado não dispunha, naquele momento, dos recursos técnicos e financeiros necessários para executar empreendimento de tal envergadura. A luta por um porto organizado confundia-se, assim, com a afirmação política da própria praça santista no contexto do Império.
Chega a Santos o telégrafo
É também nesse cenário de espera, de projetos e de disputas econômicas que chega a Santos a tecnologia do telégrafo, acompanhando outras inovações oriundas da Europa. Se o porto ainda era improvisado, a comunicação começava a integrar a cidade à rede internacional de informações. Para uma praça que aspirava à modernidade e buscava consolidar-se como centro estratégico do comércio cafeeiro, a rapidez na circulação de notícias tornava-se tão essencial quanto a construção de cais e armazéns. A cidade que sonhava com um porto organizado passava, simultaneamente, a experimentar a revolução da comunicação instantânea.
A instalação da comunicação telegráfica por cabo submarino, efetivada em 26 de abril de 1874, marcou momento decisivo para o comércio de Santos. A ligação direta da cidade com os demais portos do Império e com as praças comerciais da Europa representou significativo avanço para uma praça cuja prosperidade dependia da circulação rápida de informações sobre preços, câmbio, fretes e política internacional. A regularidade do serviço foi reconhecida; entretanto, as condições impostas à sua utilização suscitaram justas ponderações.

MODERNIDADES COMO A TIPOGRAFIA, A FERROVIA E O TELÉGRAFO CHEGARAM A SANTOS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO 19, AINDA ANTES DA ORGANIZAÇÃO DO PORTO
Preços abusivos
As tarifas praticadas pela Western & Brazilian Telegraph Company revelaram-se excessivas desde o início. O preço de 1$000 por palavra para o Rio de Janeiro, ainda que reduzido posteriormente à metade, permaneceu oneroso. Com as deliberações do Congresso Telegráfico de São Petersburgo, novas exigências agravaram o quadro: limitação de dez letras por palavra, aumento expressivo dos despachos transatlânticos e fixação da taxa de 1$600 para a capital do Império. Tais medidas restringiam o uso do serviço a negócios de maior vulto, afastando pequenos e médios comerciantes de um instrumento que deveria servir amplamente ao progresso econômico.
Somava-se a isso a ausência de regulamento claro e estável. Palavras compostas admitidas em determinado momento eram recusadas em outro, sem explicação satisfatória. A incerteza quanto às regras de transmissão criava embaraços, atrasos e despesas imprevistas. Para uma praça que dependia da precisão e da agilidade das comunicações, a falta de critérios uniformes comprometia a confiança no sistema.
Em contraste, a chamada Linha do Governo, após período inicial de interrupções, passou a oferecer serviço mais regular, com horário de atendimento estendido até as dez horas da noite, enquanto a estação do cabo submarino encerrava atividades às cinco da tarde. A entrega dos telegramas fazia-se com pontualidade, e as taxas mostravam-se comparativamente mais módicas. O reconhecimento desse desempenho figurou de forma expressa no Relatório de 1876, como registro de equilíbrio e justiça.
Agências de Notícias
No tocante às informações internacionais, a contratação da Agência Havas-Reuter representou importante iniciativa. Mediante contribuição mensal, a Associação passou a receber despachos comerciais relativos ao Rio de Janeiro, aos principais mercados da Europa e dos Estados Unidos, bem como notícias políticas de interesse direto para os negócios da Praça. Embora o serviço ainda não alcançasse a perfeição desejável e tivesse motivado reclamações, registrou-se igualmente o empenho demonstrado no atendimento às demandas locais.
O conjunto dessas observações estão consignadas no Relatório de 1876, que evidencia o momento de transição vivido por Santos na década de 1870. O telégrafo inaugurava nova dinâmica para o comércio, reduzindo distâncias e acelerando decisões. Ao mesmo tempo, impunha desafios relativos a custos, regulamentação e acesso equitativo. Entre avanços técnicos e reivindicações legítimas, consolidava-se a compreensão de que a informação rápida era elemento estratégico para o desenvolvimento da cidade e para a afirmação de sua posição no cenário econômico do Império.