Oito décadas de memória do comércio santista

Reportagem publicada na revista Flamma em janeiro de 1951 relembra a trajetória da Associação Comercial de Santos desde sua fundação em 1870 e destaca o papel da entidade na vida econômica da cidade.

Em janeiro de 1951, a extinta revista Flamma publicou uma reportagem intitulada “Oito Décadas de Serviços Prestados ao Comércio de Santos”, na qual registrava, sob clara perspectiva celebrativa, o octogésimo aniversário da fundação da Associação Comercial de Santos, transcorrido no dia 22 de dezembro de 1950. O texto recordava que a entidade, então já consagrada como a mais antiga associação de classe do Estado, havia nascido no ano de 1870, fruto da iniciativa de figuras notáveis como Nicolau Vergueiro, Ignacio Wallace da Gama Cocrane, William F. Wright, Gustavo Backeuser, G. Wagner e J. Azurem Costa, nomes que simbolizavam o espírito empreendedor de uma cidade cuja história sempre caminhou de mãos dadas com o comércio e com o porto.

Segundo a matéria, desde seus primeiros passos a Associação Comercial de Santos conquistara o respeito público, estruturando-se juridicamente com a aprovação de seus estatutos pelo decreto nº 4.738, de 7 de junho de 1871, ato assinado pela imperatriz d. Tereza Cristina (na verdade, a revista errou essa informação, pois quem assinou de fato foi a princesa regente, Isabel). O relato publicado na Flamma ressaltava que, ao longo das décadas, a entidade mantivera firme o compromisso de representar o comércio santista perante os poderes constituídos, defendendo interesses legítimos, encaminhando reivindicações, orientando negociações e contribuindo para o desenvolvimento econômico da cidade e da região. A reportagem descrevia que a atuação da instituição ultrapassava o campo corporativo: envolvia estudos de conjuntura, organização de informações estatísticas, manutenção de biblioteca e acervo de consulta, assistência jurídica aos associados, apoio às questões trabalhistas e fiscais e ainda a mediação de conflitos por meio de Comissão Arbitral, fortalecendo a cultura de diálogo e conciliação entre empresários e agentes do mercado.

O texto também sublinhava um dos papéis mais sensíveis desempenhados pela Associação Comercial ao longo do tempo: o acompanhamento diário do movimento de vendas de café na praça de Santos, atividade essencial para a economia local e nacional, uma vez que a cidade consolidara-se como principal escoadouro do produto brasileiro. Coube à entidade, conforme destacava a revista, organizar e divulgar bases de preços de acordo com os tipos-padrão, contribuindo para a estabilidade das negociações e para a confiança dos agentes comerciais. Ao mesmo tempo, a associação mantinha interlocução permanente com o poder público e entidades privadas, propondo medidas voltadas ao estímulo da produção e da circulação de riquezas, numa época em que o comércio santista desempenhava papel decisivo nas dinâmicas econômicas do país.

A reportagem dedicava ainda espaço à memória institucional, apresentando a extensa galeria de presidentes que dirigiram a Associação Comercial ao longo de seus oitenta anos de existência. A relação, que percorria cronologicamente nomes e períodos de gestão, evocava figuras como Visconde de Vergueiro, Visconde de Embaré, Francisco de Paula Ribeiro, Antonio de Lacerda Franco, Ernesto Candido Gomes, Antonio Iguatemy Martins, Francisco de Andrade Coutinho, Joaquim Miguel Martins de Siqueira, Francisco Marcos Inglez de Souza, José Domingues Martins, José Maria Whitaker, Antonio Carlos de Assumpção, Antonio Teixeira de Assumpção Netto, Antonio da Silva Azevedo Junior, Belmiro Ribeiro de Moraes e Silva, Esaú Silveira, José Martiniano Rodrigues Alves, Alberto Cintra, João Mellão, João Moreira Salles, Alceu Martins Pereira, entre tantos outros que, ao longo de décadas, conduziram a entidade em diferentes conjunturas históricas, políticas e econômicas.

Por fim, a edição de janeiro de 1951 registrava a composição da diretoria então empossada para o biênio 1951-1952, presidida pelo dr. Silvio Alves de Lima, tendo como 1º vice-presidente o dr. Alvaro Augusto de Buenos Vidigal e como 2º vice-presidente Jayme Kannebley, além de Mariano de Laet Gomes e Ismael Alberto Sousa nas secretarias, Harold Mac Cardell na tesouraria e um corpo de diretores formado por empresários de destaque na vida econômica santista, entre os quais Alvaro de Freitas Guimarães, Benedito Tavares Guerra, Candido Azeredo Filho, Emanuel de Nioac, Francis de Sousa Dantas Forbes, Geraldo Gomide de Mello Peixoto, Hercilio Camargo Barbosa, Ralph O. Brunsen e Tarquinio Marques Ferreira. A Comissão de Contas, composta pelos srs. Gustavo da Costa Silveira, Luiz Soares e Rui Pinto Cesar, completava o quadro administrativo, reafirmando o caráter coletivo e representativo da instituição.

Vista hoje sob olhar memorialístico, a reportagem da Flamma celebrava a efeméride institucional em tom de reconhecimento histórico, a trajetória de uma entidade que acompanhara a própria formação econômica de Santos, testemunhando mudanças de época, ciclos do comércio do café, transformações urbanas e sucessivas gerações de lideranças empresariais. Ao revisitar esse documento, resgata-se a memória da Associação Comercial de Santos, bem como um fragmento precioso da história social, econômica e cultural da cidade.

 

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