Tipo 7 no grão, tipo 1 no paletó

Os elegantes corretores de Santos que negociavam o café popular dominaram volumes expressivos no porto e eternizaram sua imagem nas páginas da revista A Fita, em agosto de 1912.

Em agosto de 1912, a revista A Fita publicou a fotografia de um grupo peculiar e elegante: a turma de corretores de Santos que trabalhava com o chamado café tipo 7. A imagem, tomada em plena praça comercial, revelava homens de chapéu de palha, ternos claros impecavelmente cortados, colarinhos engomados e bigodes cuidadosamente aparados. Se o produto que negociavam era classificado como inferior, a apresentação pessoal daqueles senhores, ao contrário, era indiscutivelmente “tipo 1”.

No começo do século passado, os corretores de café da praça de Santos organizavam-se segundo as categorias do produto que intermediavam. O sistema de classificação vigente, que ia do tipo 2 ao tipo 8, baseava-se na contagem de defeitos encontrados em uma amostra de 300 gramas de grãos crus. O tipo 7 apresentava um número elevado de imperfeições: grãos pretos, ardidos, brocados, verdes, além de matérias estranhas como paus e pedras. Era, portanto, considerado de qualidade inferior ou intermediária-baixa, frequentemente associado a bebidas “rio” ou “riada”, de sabor mais áspero, medicinal ou iodado.

Ainda assim, longe de ser irrelevante, o tipo 7 figurava entre os mais volumosos embarcados pelo porto de Santos. O mercado internacional absorvia grandes quantidades desse café, muitas vezes destinado a torras mais escuras (a chamada torra extraforte) cujo amargor ajudava a disfarçar os defeitos do grão. Era o café de consumo popular, o café que abastecia multidões, sustentando cifras expressivas nas estatísticas portuárias e garantindo movimento constante aos armazéns e trapiches.

Nesse cenário, os corretores especializados no tipo 7 desempenhavam papel estratégico. Negociavam volumes robustos, acompanhavam lotes, discutiam preços e prazos, transitando diariamente entre as casas comissárias, os armazéns e os escritórios próximos ao cais. A Associação Comercial de Santos, epicentro da vida econômica da cidade, era o palco institucional dessas articulações. Ali se consolidavam contratos, firmavam-se reputações e ecoavam as oscilações do mercado internacional. Mesmo tratando de um produto classificado como inferior, aqueles homens operavam dentro da engrenagem maior que fazia de Santos o principal porto exportador de café do mundo.

A fotografia de A Fita cristalizou esse contraste curioso: o café podia ser tipo 7, com seus defeitos oficialmente contados e anotados em tabelas; mas seus corretores, alinhados e altivos, exibiam trajes claros que reluziam sob o sol santista, chapéus bem postos e postura confiante. Eram representantes de uma economia vibrante, na qual até o grão imperfeito encontrava destino certo nos navios que cruzavam o Atlântico.

Hoje, a antiga classificação numérica caiu em desuso, substituída por normas modernas que privilegiam avaliações sensoriais e percentuais de defeitos, como os padrões adotados pela ABIC. Contudo, a memória daqueles corretores permanece como testemunho de um tempo em que a praça de Santos pulsava ao ritmo do café, fosse ele fino ou popular, e em que elegância e comércio caminhavam lado a lado, provando que, mesmo negociando um produto tipo 7, seus protagonistas faziam questão de se apresentar, sempre, como legítimos tipo 1.

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