O santista homenageado em vida que presidiu a Associação Comercial
Natural de Santos, banqueiro, coronel da Guarda Nacional e presidente da Câmara Municipal, Antonio Iguatemy Martins chegou à presidência da Associação Comercial de Santos no final do século XIX. Seu prestígio foi tamanho que, ainda em plena atividade, teve seu nome dado a uma praça da cidade. Quando morreu, em 1929, o funeral foi custeado pela Municipalidade em reconhecimento aos serviços que havia prestado à terra natal.
Um nome da vida econômica e política santista
Antonio Iguatemy Martins pertenceu a uma geração de homens públicos e empresários cuja atuação acompanhou um dos períodos de maiores transformações da história de Santos. Natural da cidade, onde viveu durante toda a vida, construiu uma trajetória que reuniu atividade empresarial, participação política, atuação bancária e presença em algumas das principais instituições santistas. Nas últimas décadas do século XIX, quando a expansão do café, a modernização do porto e o crescimento urbano modificavam profundamente o município, Iguatemy Martins já ocupava posição de destaque. Presidiu a Câmara Municipal de Santos e esteve ligado à direção de companhias e estabelecimentos bancários, construindo uma reputação que posteriormente o levaria ao comando da Associação Comercial de Santos. Era também coronel comandante superior da Guarda Nacional, título pelo qual seria frequentemente identificado nos registros de sua época.
Da Câmara Municipal à presidência da ACS
Sua atuação política antecedeu a passagem pelo comando da Associação Comercial. Na segunda metade da década de 1890, Antonio Iguatemy Martins presidiu a Câmara Municipal, em uma época na qual a estrutura administrativa da cidade ainda passava por mudanças e o Legislativo exercia importante papel na condução dos assuntos municipais. Pouco depois, assumiu a presidência da Associação Comercial de Santos, tornando-se o sétimo dirigente a ocupar o posto e permanecendo à frente da entidade na virada para o século XX. A posição tinha especial relevância naquele momento. O crescimento das exportações de café havia transformado Santos em um centro comercial de dimensão nacional, e a ACS reunia empresários diretamente envolvidos com o porto, o sistema financeiro, as casas comerciais e as atividades que sustentavam o movimento econômico da cidade. A trajetória de Iguatemy Martins, portanto, transitava justamente pelos ambientes que naquele período exerciam maior influência sobre o desenvolvimento santista.
Banqueiro e dirigente empresarial
A ligação com o sistema financeiro aparece de maneira clara no início do século XX. Em 1902, Antonio Iguatemy Martins figurava como diretor presidente do Banco Mercantil de Santos, instituição inserida em uma praça comercial cada vez mais movimentada pela riqueza gerada pelo café. Documentos daquele período mostram sua participação direta em assuntos bancários e negociações empresariais, confirmando que sua atuação estava longe de se restringir às funções honoríficas ou políticas. O próprio necrológio publicado depois de sua morte destacou que havia dirigido diversas companhias e estabelecimentos bancários. Era, assim, um personagem situado no encontro entre a vida econômica e a administração pública, algo bastante característico da elite empresarial santista daquele período.
Uma praça em sua homenagem, ainda em vida
Talvez um dos sinais mais expressivos do prestígio alcançado por Antonio Iguatemy Martins tenha surgido em 22 de setembro de 1897. Naquela data, a Câmara Municipal aprovou a denominação de Praça Iguatemi Martins para o espaço localizado junto à região do Mercado Municipal. A homenagem foi concedida quando ele ainda estava em plena atividade e mais de três décadas antes de sua morte. Poucos anos depois, documentos municipais já utilizavam normalmente a nova denominação ao tratar de obras e melhoramentos realizados na área, demonstrando que o nome rapidamente se incorporou ao cotidiano santista. Posteriormente, em 1921, a denominação seria consolidada na reorganização oficial da nomenclatura das vias públicas. Assim, quando seu nome passou definitivamente ao mapa da cidade, Iguatemy Martins ainda acompanhava pessoalmente as transformações de uma Santos que ajudara a administrar.
O coronel da Guarda Nacional
Outra dimensão de sua trajetória estava ligada à Guarda Nacional. Registros do início do século XX apresentam Antonio Iguatemy Martins como coronel comandante superior da Guarda Nacional, função que traduzia também sua posição social na Santos daquele período. Criada ainda durante o Império, a instituição permaneceu durante décadas intimamente relacionada às estruturas políticas e às lideranças locais. O título de coronel acompanharia Iguatemy Martins até o fim da vida e apareceria inclusive nos anúncios de seu falecimento. Uma fotografia publicada em janeiro de 1902 o identificava nessa condição, oferecendo também um importante registro visual do ex presidente da Associação Comercial em plena atividade.
A família Iguatemy Martins
Antonio Iguatemy Martins era casado com Anna Flora de Sá Martins, também referida nos jornais como Flora de Sá Martins. O casal teve numerosa família. Entre os filhos estavam Antonio Iguatemy Martins Júnior, casado com Dulce Stockler Martins, Plinio Iguatemy Martins, casado com Dagmar Miller Martins, Alice, esposa de Leoncio Soares Fortunato, Beatriz, esposa de Reynaldo da Rocha Leite, Marina, esposa de Sebastião Arantes Nogueira, e Irene, casada com o capitão tenente Arthur Oliveira Durão. O sobrenome permaneceria presente na vida pública santista por meio de Antonio Iguatemy Martins Júnior, que mais tarde se tornaria prefeito de Santos e também figuraria entre os sócios fundadores do Santos Futebol Clube. A família possuía ainda uma ligação direta com outro nome marcante da história cultural da cidade. Isabel Martins Fontes, irmã de Antonio Iguatemy Martins, era viúva do médico Silvério Fontes e mãe do poeta Martins Fontes.
A morte e a homenagem da cidade
Antonio Iguatemy Martins faleceu em 2 de março de 1929, um sábado, às 14 horas, em sua residência na Rua Nascimento, nº 37, em Santos. Tinha 67 anos e, segundo o anúncio de falecimento publicado no dia seguinte, vinha sofrendo havia algum tempo com problemas de saúde. A notícia repercutiu também fora da cidade. O Correio Paulistano destacou sua condição de santista, afirmando que havia passado toda a vida em sua terra natal, onde prestara relevantes serviços e conquistara grande estima. O reconhecimento público tornou-se especialmente evidente nas cerimônias fúnebres. A Municipalidade decidiu custear seu funeral como manifestação de gratidão pelos serviços prestados à cidade. No dia 3 de março, o cortejo saiu de sua residência em direção ao Cemitério do Paquetá, onde foi sepultado com grande acompanhamento.
O reconhecimento também no ambiente familiar
Poucas semanas depois de sua morte, outro documento registrou um aspecto particular da vida de Antonio Iguatemy Martins. Em carta datada de 19 de abril de 1929, Anna Flora de Sá Martins agradeceu publicamente o recebimento de 35 contos de réis referentes a uma apólice de seguro de vida que o marido havia contratado em seu benefício na New York Life Insurance Company, então sucedida naquela operação pela Sul América. Embora se tratasse de um episódio privado, o anúncio ajuda a compor o cenário econômico da família e mostra que, mesmo após sua morte, o nome de Iguatemy Martins continuava aparecendo nas páginas dos jornais santistas.
Uma trajetória preservada no mapa de Santos
A história de Antonio Iguatemy Martins reúne elementos que ajudam a compreender a formação da elite econômica e institucional de Santos entre o final do século XIX e o início do XX. Ele esteve na Câmara Municipal, presidiu a Associação Comercial, dirigiu instituições financeiras e empresas, comandou a Guarda Nacional e participou de uma sociedade que se transformava rapidamente sob o impulso do café e do porto. Sua trajetória ganhou uma dimensão particular porque o reconhecimento da cidade não ocorreu apenas depois de sua morte. Em 1897, quando ainda tinha uma longa carreira pela frente, seu nome já havia sido escolhido para identificar uma praça pública. Em 1929, no encerramento dessa mesma trajetória, a Municipalidade assumiu as despesas de seu funeral em gratidão pelos serviços prestados.
Iguatemy Martins na memória da Associação Comercial
Para a Associação Comercial de Santos, Antonio Iguatemy Martins representa uma geração de dirigentes que participou diretamente da consolidação da entidade durante os anos de extraordinário crescimento do comércio santista. Seu retrato permanece ligado à galeria histórica dos presidentes da ACS, preservando a memória de um personagem que circulou por diferentes espaços de poder e representação da cidade. Presidente da Câmara, banqueiro, coronel da Guarda Nacional e presidente da Associação Comercial, Antonio Iguatemy Martins construiu uma trajetória que ajuda a explicar o funcionamento de Santos no período em que o município se projetava definitivamente como uma das principais praças comerciais do Brasil. Seu nome continuou na família, nas instituições e, de forma bastante concreta, na própria geografia santista, onde a Praça Iguatemi Martins permanece como testemunho de uma homenagem recebida ainda em vida.
