Uma presidência entre o café, a política e a crise
Alberto Cintra esteve à frente da Associação Comercial de Santos entre 1926 e 1930, período marcado por acontecimentos que afetaram diretamente a economia cafeeira, o Porto de Santos e a própria organização política do país. Sua presidência atravessou os últimos anos da República Velha, acompanhou a política de valorização do café, enfrentou os efeitos da crise econômica iniciada em 1929 e terminou poucos dias depois da Revolução de 1930. Ao mesmo tempo, sua trajetória ultrapassou os limites da vida associativa santista: bacharel em Direito, fazendeiro com interesses no Paraná e integrante de uma família de projeção econômica, Cintra também ingressou na política estadual, sendo eleito deputado pelo Partido Republicano Paulista para a legislatura de 1928 a 1930.
Filho de Joaquim de Araújo Cintra e Etelvina de Almeida, Alberto Cintra era casado com Lúcia Barbosa Ferraz, filha do coronel Antônio Barbosa Ferraz Júnior. O casal teve, entre os filhos identificados pela pesquisa, Alberto Cintra Filho, Maria Cecília Cintra, Dora Cintra e Marina Cintra. Os vínculos familiares, patrimoniais e políticos de Cintra ajudam a situá-lo dentro de uma geração de dirigentes que transitava entre o comércio, a agricultura, os negócios e a representação institucional. Em Santos, porém, foi sobretudo sua passagem pela presidência da Associação Comercial que lhe conferiu posição de destaque em um dos períodos mais delicados da economia exportadora brasileira.
A Associação Comercial no centro da praça santista
Quando Alberto Cintra assumiu a presidência da Associação Comercial de Santos, em 1926, a entidade exercia papel central na organização dos interesses econômicos da cidade. O café continuava sendo o principal produto movimentado pelo porto e a ACS funcionava como ponto de articulação entre comerciantes, exportadores, bancos, empresas de transporte e autoridades públicas. As decisões tomadas em sua sede podiam envolver desde questões tributárias e ferroviárias até problemas relacionados ao crédito, à armazenagem, ao funcionamento portuário e às relações entre as firmas da praça.
A gestão de Cintra procurou fortalecer também os serviços colocados diretamente à disposição dos associados. Em dezembro de 1926, a diretoria aprovou a criação de um serviço reservado de informações comerciais destinado especialmente às empresas que mantinham negócios com clientes do interior. A proposta era fornecer elementos capazes de orientar decisões de crédito e reduzir riscos nas operações comerciais. Esse tipo de iniciativa mostra uma Associação que, além de atuar politicamente em defesa de seus associados, buscava criar instrumentos práticos para o funcionamento cotidiano dos negócios.
A administração também ampliaria sua atuação jurídica. Criado em 1928, o Serviço de Assistência Judicial tornou-se uma das estruturas de apoio aos integrantes da entidade. Quando a diretoria encerrou sua gestão, em outubro de 1930, o serviço já havia proposto 108 feitos, a maior parte relacionada a extravios, faltas ou trocas de cafés. O número revela a dimensão dos conflitos produzidos por uma atividade comercial complexa, dependente de transporte, armazenagem, classificação e circulação de grandes volumes do produto que sustentava boa parte da economia santista.
O café como eixo da atuação institucional
O café esteve no centro de diversas iniciativas da Associação Comercial durante a presidência de Alberto Cintra. Entre 1926 e 1927, a entidade participou ativamente das comemorações relacionadas ao Bicentenário da Introdução do Café no Brasil. Cintra foi indicado para representar a ACS na organização dos festejos e a instituição envolveu-se na Grande Exposição do Café, reforçando a ligação histórica entre Santos, seu porto e o produto que havia transformado a economia paulista.
A atuação não se restringia às comemorações. A defesa da cafeicultura fazia parte do cotidiano institucional da ACS e estava diretamente relacionada aos interesses de grande parcela das empresas associadas. Cintra defendia a importância da política de proteção ao produto e via o Porto de Santos como peça fundamental na sustentação da atividade exportadora. Essa posição aproximava a Associação das principais discussões econômicas conduzidas pelo governo paulista durante a segunda metade da década de 1920.
A presença da entidade nesses debates também se manifestava em sua relação com o poder público. Em julho de 1927, a Associação Comercial recebeu Júlio Prestes, então presidente eleito do Estado de São Paulo, em uma homenagem que reuniu representantes da praça santista. Como presidente da instituição, Alberto Cintra teve papel destacado na recepção e utilizou a ocasião para abordar os interesses do comércio e da cafeicultura. A ACS afirmava, dessa maneira, sua condição de interlocutora dos setores econômicos de Santos junto ao governo estadual.
Da Associação Comercial à Assembleia Legislativa
A projeção alcançada por Alberto Cintra na vida econômica coincidiu com seu avanço na política. Em 1927, ele ainda aparecia vinculado ao Partido Democrático, organização da qual se desligou naquele ano. Pouco depois, aproximou-se do Partido Republicano Paulista e foi eleito deputado estadual pelo 1º Distrito para a legislatura de 1928 a 1930, recebendo 4.185 votos.
Sua atividade parlamentar guardava relação direta com o universo que representava em Santos. Durante os três anos da legislatura, Alberto Cintra integrou a Comissão de Comércio e Indústria da Câmara estadual. Assim, enquanto presidia a Associação Comercial de Santos, participava também do espaço legislativo responsável por discutir temas ligados à atividade econômica paulista. As duas funções colocavam-no em uma posição privilegiada de interlocução entre a praça comercial santista e o governo estadual.
Esse vínculo tornou sua presidência especialmente política. A Associação Comercial não atuava como organização partidária, mas dependia permanentemente do diálogo com autoridades para questões ligadas ao café, ao porto, às ferrovias, ao crédito e à legislação comercial. A presença de seu presidente no Legislativo estadual ampliava as possibilidades de representação desses interesses em São Paulo.

A tragédia do Monte Serrat
A gestão de Alberto Cintra também foi marcada por acontecimentos que ultrapassaram a esfera estritamente econômica. Em março de 1928, os deslizamentos do Monte Serrat provocaram uma das maiores tragédias da história santista. A Associação Comercial participou da mobilização organizada na cidade para auxiliar as vítimas, promovendo subscrições e articulando apoio de empresas, entidades e instituições.
A documentação daquele período mostra Alberto Cintra recebendo comunicações dirigidas diretamente à presidência da ACS e participando da articulação das medidas de auxílio. O episódio evidencia a posição que a Associação ocupava na sociedade santista. Diante de uma calamidade de grandes proporções, sua estrutura e sua capacidade de mobilização foram colocadas a serviço de uma resposta coletiva que envolveu diferentes setores da cidade.
Reeleição e fortalecimento dos serviços
Ao final de 1928, Alberto Cintra teve sua permanência na presidência confirmada. A diretoria foi reeleita por unanimidade em assembleia realizada com participação de dezenas de firmas associadas. O novo mandato foi recebido em 15 de dezembro daquele ano e deveria se estender até dezembro de 1930.
Foi durante esse período que ocorreu também a remodelação do Montepio Comercial, estrutura ligada à Associação destinada à proteção de seus participantes. Em 1929, o Montepio passou por reorganização e ampliação de suas atividades. Quando a administração Cintra apresentou a renúncia no ano seguinte, a própria diretoria registrou que o serviço atravessava uma fase de franca prosperidade. Ao lado da Assistência Judicial e dos mecanismos de informação comercial, o Montepio fazia parte de uma estrutura institucional que procurava oferecer proteção e suporte aos integrantes da praça.
A crise de 1929 chega a Santos
A quebra da Bolsa de Nova York e a crise internacional de 1929 atingiram com força a economia cafeeira brasileira. Santos, principal porto exportador do produto, sentiu imediatamente os efeitos da retração. Alberto Cintra retornava de uma viagem à Europa quando encontrou uma praça comercial diante de um cenário de crescente preocupação.
A Associação Comercial participou das articulações promovidas por representantes do comércio, da agricultura, dos bancos e das organizações ligadas ao café. Cintra integrou reuniões e contatos destinados a buscar providências junto ao governo paulista e às autoridades federais. A defesa do produto, que durante os anos anteriores estivera associada às políticas de valorização e expansão econômica, passava agora a ser realizada em um ambiente de queda de preços, dificuldade de crédito e incerteza sobre os rumos do mercado internacional.
Para a ACS, a crise representava um desafio direto. Grande parte dos negócios realizados por seus associados estava ligada à cadeia do café, e qualquer retração nas exportações repercutia sobre transportes, armazenagem, bancos, casas comissárias, exportadores e demais atividades vinculadas ao porto. A gestão de Alberto Cintra chegava, assim, aos seus últimos meses diante de uma conjuntura econômica muito diferente daquela encontrada em 1926.
Outubro de 1930
O encerramento da presidência de Alberto Cintra ocorreu em meio a uma ruptura ainda maior. A Revolução de 1930 derrubou a estrutura política que sustentara a República Velha e alterou profundamente o comando do governo paulista. Apenas três dias depois da deposição do presidente Washington Luís, a diretoria da Associação Comercial de Santos reuniu-se para reconhecer que a nova situação exigia uma mudança na condução da entidade.
Em 27 de outubro de 1930, foi apresentado à Assembleia Geral Extraordinária um ofício no qual a diretoria comunicava sua renúncia coletiva. O documento afirmava que a “mudança repentina e radical” ocorrida na administração do país exigia da Associação o exame imediato de diversos assuntos relacionados à defesa da praça comercial. Diante daquilo que os próprios dirigentes definiam como uma nova etapa, consideravam conveniente entregar à assembleia o mandato que haviam recebido em 15 de dezembro de 1928, permitindo a escolha de novos representantes capazes de estabelecer contato com os poderes que assumiam o governo.
Alberto Cintra estava ausente da reunião e, por esse motivo, não figurou entre os signatários do ofício. A circunstância foi esclarecida pelo vice-presidente Taylor de Oliveira, que informou aos presentes que Cintra estava plenamente de acordo com a decisão dos demais integrantes da diretoria. O pedido de renúncia foi então submetido à assembleia e aprovado por unanimidade.
A saída de Alberto Cintra da presidência, portanto, não resultou de uma destituição individual ou de um conflito interno da Associação. Tratou-se de uma decisão coletiva tomada diante da profunda mudança política provocada pela Revolução de 1930. Para os dirigentes, o novo cenário exigia outros interlocutores e uma administração capaz de relacionar-se rapidamente com as novas autoridades.
Uma junta para a transição
Aceita a renúncia, os associados discutiram a criação de uma junta administrativa que conduzisse a instituição até o término do biênio e a eleição regular da nova diretoria. A proposta foi apresentada por Francisco Arantes e recebeu 30 votos favoráveis e três contrários. A urgência da medida estava relacionada ao próprio momento econômico e político vivido pela cidade.
Entre os problemas que exigiam atenção imediata estava a cobrança de armazenagem pelas estradas de ferro sobre cafés cujos prazos haviam vencido durante o regime excepcional de feriados provocado pelos acontecimentos políticos. A assembleia decidiu que a nova administração deveria atuar junto às autoridades para impedir que comerciantes fossem prejudicados por uma situação que escapava ao funcionamento normal dos negócios.
Aquele episódio sintetizava a função desempenhada pela Associação Comercial durante toda a presidência de Alberto Cintra. A instituição precisava reagir rapidamente a acontecimentos políticos, econômicos e administrativos porque seus efeitos chegavam quase imediatamente às operações realizadas no Porto de Santos e às empresas da praça.
O fim de uma gestão e de uma época
A presidência de Alberto Cintra começou em 1926, quando o café ainda sustentava um período de grande circulação de riquezas pelo Porto de Santos, e terminou em outubro de 1930, quando tanto o modelo econômico quanto a estrutura política da República Velha estavam sob forte pressão. Entre esses dois momentos, a Associação Comercial ampliou serviços aos associados, participou das grandes discussões relacionadas à cafeicultura, fortaleceu sua interlocução com o governo estadual e enfrentou acontecimentos que marcaram profundamente Santos e o país.
Cintra ocupou posição central nesse processo. Como presidente da ACS e deputado estadual, esteve simultaneamente ligado à representação do comércio santista e às estruturas políticas de São Paulo. Sua passagem pela entidade permite acompanhar não apenas uma administração institucional, mas também as transformações de uma época em que Santos ocupava posição estratégica na economia brasileira.
A renúncia de 27 de outubro de 1930 encerrou sua presidência e simbolizou o fechamento de um ciclo. A própria diretoria reconhecia que as condições existentes quando recebera o mandato em dezembro de 1928 haviam desaparecido. Novas autoridades assumiam o governo, a crise do café continuava a exigir respostas e a Associação Comercial precisava reorganizar suas relações com o poder público.
Alberto Cintra deixava a presidência depois de quatro anos em que a ACS estivera diretamente envolvida em alguns dos principais acontecimentos econômicos e sociais de Santos. Sua trajetória dentro da instituição permanece, por isso, vinculada a uma fase decisiva da história da entidade: os últimos anos da República Velha, a crise da economia cafeeira e a passagem para uma nova ordem política inaugurada em 1930.
