SÉRIE EX-PRESIDENTES: Esaú Silveira

Quando Esaú Silveira chegou à presidência da Associação Comercial de Santos, entre 1932 e 1933, encontrou uma entidade inserida em um dos períodos mais difíceis da economia brasileira na primeira metade do século XX. Os efeitos da crise mundial iniciada em 1929 ainda atingiam diretamente o café, principal produto de exportação do país, enquanto o governo instalado depois da Revolução de 1930 alterava estruturas políticas e econômicas que haviam marcado as décadas anteriores. Em Santos, onde o porto, o comércio exterior e a atividade cafeeira estavam profundamente interligados, qualquer decisão tomada no Rio de Janeiro repercutia imediatamente sobre exportadores, comerciantes, armazéns, empresas portuárias e trabalhadores. A Associação Comercial de Santos ocupava posição central nesse ambiente e precisava manter interlocução permanente com o governo federal. Foi nesse contexto que Esaú se tornou uma das figuras chamadas a representar os interesses da praça santista.

De Morretes para a vida santista

Nascido em Morretes, no Paraná, em 27 de junho de 1881, Esaú Silveira era filho de Cassiano Hyppolito da Silveira e Maria Clara de Loyolla. Sua ligação com Santos começou ainda jovem. Em 24 de maio de 1898, quando estava prestes a completar 17 anos, figurou entre os fundadores do Clube Internacional de Regatas, instituição à qual permaneceria ligado durante toda a vida. Dez anos depois, em 6 de maio de 1908, casou-se em Santos com Alice Jeanne de Breyne, integrante de uma família de forte presença na sociedade local. O casal constituiu numerosa família e teve entre seus filhos Oswaldo de Breyne Silveira, Ivete Silveira de Carvalho, Lourdes Silveira Figueiredo, Ilza Silveira Figueiredo, Paulo de Breyne Silveira, Roberto de Breyne Silveira, Gilberto de Breyne Silveira e Marcelo de Breyne Silveira. Essa trajetória familiar e associativa mostra que, embora paranaense de nascimento, Esaú construiu em Santos as principais relações sociais, profissionais e institucionais de sua vida adulta.

No centro da crise do café

Sua projeção no ambiente econômico santista tornou-se particularmente evidente no começo da década de 1930. Em 1931, quando o colapso dos preços do café obrigava o governo brasileiro a adotar medidas extraordinárias, Esaú já aparecia diretamente envolvido nas questões relacionadas ao produto. Em junho daquele ano, ao lado de Flamínio Levy, figurou como representante do Conselho Nacional do Café nas operações relacionadas à destruição de estoques. A medida fazia parte do esforço governamental para reduzir a quantidade de café disponível no mercado e tentar conter a queda das cotações internacionais. Para uma cidade cuja economia estava fortemente vinculada ao embarque do produto, o assunto tinha enorme importância, e a presença de Esaú nesse processo revela que ele já transitava entre os grupos encarregados de acompanhar decisões de alcance nacional.

Sua atuação dentro da Associação Comercial de Santos também ganhou visibilidade naquele período. Em dezembro de 1931, Esaú encontrava-se no Rio de Janeiro tratando de uma reivindicação relacionada à marcação das sacas de café. A imprensa registrou que os interesses defendidos pela entidade santista haviam sido atendidos graças aos esforços de seu representante. A missão ajuda a compreender uma das funções desempenhadas pela ACS naquele momento. A entidade não se limitava a discutir internamente os problemas enfrentados pelos comerciantes, pois mantinha representantes em contato direto com ministérios, autoridades federais e órgãos ligados à política econômica. Para desempenhar essa tarefa, era necessário conhecer os interesses locais, possuir trânsito entre os empresários e demonstrar capacidade de negociação fora de Santos. Esaú passou a exercer exatamente essa função.

A voz da Associação Comercial no Rio de Janeiro

Em janeiro de 1932, ele voltou ao Rio de Janeiro, então identificado como diretor da Associação Comercial de Santos, para acompanhar outra questão de grande interesse para a cidade: a cobrança do adicional de dois por cento ouro nas operações realizadas pelo Porto de Santos. No dia 18 daquele mês, integrou uma Delegação do Comércio Paulista que apresentou reivindicações diretamente ao governo federal. Esaú participava como representante da ACS, inserindo a entidade santista em uma articulação empresarial de dimensão estadual. A discussão envolvia custos portuários, tributação e condições para o funcionamento do comércio exterior, temas que atingiam diretamente a competitividade do porto e das empresas instaladas na cidade. Sua presença nessas negociações demonstra que, antes mesmo de assumir a presidência, já havia conquistado posição de confiança entre os dirigentes da Associação.

Ao longo de 1932, essa responsabilidade aumentou. Em dezembro, Esaú já aparecia assinando documentos oficialmente em nome da Associação Comercial de Santos. Poucos meses depois, em março de 1933, a imprensa o identificava expressamente como presidente da entidade. Sua chegada ao comando da ACS ocorreu, portanto, como consequência de uma atuação anterior construída nas missões de representação da praça santista. Ele assumiu a presidência conhecendo diretamente algumas das questões mais urgentes enfrentadas pelos associados e tendo participado das negociações realizadas com o governo federal desde o início da crise.

Na presidência da Associação Comercial

A conjuntura exigia da Associação Comercial uma presença política constante. O mercado cafeeiro passava por uma reorganização profunda, ao mesmo tempo em que o governo Vargas ampliava a intervenção sobre a economia e criava novos mecanismos para administrar a produção e a comercialização do café. Santos permanecia como ponto fundamental dessa estrutura, já que grande parcela das exportações brasileiras passava por seu porto. Questões relacionadas à armazenagem, embarque, tarifas, impostos, câmbio e circulação de mercadorias influenciavam diretamente a atividade econômica local. À frente da ACS, Esaú representava uma instituição que precisava acompanhar essas mudanças e defender os interesses de uma cidade cuja prosperidade dependia em grande medida da relação entre o porto e o comércio exterior.

Sua presidência também revela o perfil que a Associação Comercial havia desenvolvido ao longo de sua história. O dirigente da entidade precisava atuar simultaneamente no ambiente empresarial e na esfera política, mantendo diálogo com diferentes setores econômicos e com as autoridades responsáveis pelas decisões que afetavam Santos. A experiência de Esaú nas viagens ao Rio de Janeiro tornou-se particularmente adequada a essa função. Ele já havia tratado de assuntos ligados ao café, participado de delegações empresariais, acompanhado discussões tributárias e atuado na defesa de reivindicações apresentadas pelo comércio santista. Sua passagem pela presidência deve ser compreendida dentro dessa dinâmica, na qual a ACS funcionava como uma das principais vozes organizadas dos interesses econômicos da cidade.

Do comando da ACS aos exportadores de café

Depois de deixar o comando da Associação Comercial, Esaú continuou ocupando posições diretamente relacionadas ao comércio cafeeiro. Em 1934 já era presidente do Centro dos Exportadores de Café de Santos, função que continuava exercendo no ano seguinte. Na nova entidade, voltou a atuar junto ao governo federal e participou de negociações envolvendo o comércio internacional do produto. Entre os assuntos acompanhados estavam as exportações brasileiras para a Alemanha e questões tratadas com o Banco do Brasil e o Ministério das Relações Exteriores.

A continuidade entre as duas funções é evidente. Na Associação Comercial, Esaú havia representado interesses mais amplos da praça santista, que reunia diferentes atividades vinculadas ao comércio e ao porto. No Centro dos Exportadores, concentrou sua atuação em um dos setores mais importantes daquela estrutura econômica. As duas experiências ajudam a situá-lo dentro do núcleo empresarial que acompanhava não apenas os negócios realizados em Santos, mas também as decisões governamentais capazes de interferir nas exportações brasileiras.

Uma trajetória construída entre instituições

A participação institucional de Esaú não ficou restrita às organizações diretamente ligadas ao café. Ele também chegou à presidência da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos e manteve durante décadas seu vínculo com o Clube Internacional de Regatas. Essa circulação por instituições empresariais, assistenciais e esportivas era característica de uma geração de homens que participava intensamente da vida associativa santista. As entidades constituíam espaços de relacionamento, representação de interesses, assistência e convivência, e seus dirigentes frequentemente transitavam entre diferentes organizações.

A trajetória de Esaú permite perceber essa rede com bastante clareza. Sua presença na Associação Comercial o colocou entre os representantes do empresariado; sua atuação no Centro dos Exportadores relacionou-o diretamente ao principal produto movimentado pelo porto; a Sociedade Humanitária aproximou-o de uma instituição tradicional do comércio santista; e o Internacional de Regatas representava um vínculo iniciado ainda na juventude. Em diferentes momentos, portanto, sua vida se cruzou com organizações que participaram da formação econômica e social de Santos durante a primeira metade do século XX.

Família e últimos anos

Com o passar dos anos, a família estabeleceu fortes vínculos também com São Paulo. Alice de Breyne Silveira faleceu na capital em 21 de maio de 1954. Seu funeral saiu da Avenida Brasil, número 703, em direção ao Cemitério São Paulo. Na ocasião, o obituário ainda identificava Esaú como seu marido e registrava uma família já extensa, composta por filhos, genros, noras, 32 netos e um bisneto. Seis anos depois, o mesmo endereço apareceria novamente relacionado à família, demonstrando a continuidade de sua presença na capital paulista.

Esaú permaneceu ligado ao ambiente empresarial até o final da vida. Em 1960 exercia a função de Diretor Vice Presidente da L. Figueiredo S/A. Faleceu em São Paulo em 4 de julho daquele ano, poucos dias depois de completar 79 anos. No dia seguinte, a empresa comunicou oficialmente a morte de seu diretor e informou que o funeral sairia às 14 horas da Avenida Brasil, número 703, com destino ao Cemitério São Paulo, onde seria sepultado.

A despedida de um fundador do Internacional

A notícia de sua morte repercutiu imediatamente em Santos, especialmente no Clube Internacional de Regatas. A diretoria reuniu-se extraordinariamente e decidiu decretar luto por três dias, suspendendo as atividades programadas e determinando que a bandeira da instituição permanecesse a meio mastro. O clube também resolveu participar dos funerais levando seu pavilhão para cobrir o ataúde e programou a realização de uma missa de trigésimo dia em Santos.

A homenagem encerrava uma relação iniciada em 1898. Mais de seis décadas haviam transcorrido desde que Esaú participara, ainda muito jovem, da criação do Internacional. Ao prestar aquelas homenagens em julho de 1960, o clube não recordava apenas um antigo associado, mas um personagem que havia acompanhado praticamente toda a sua trajetória até então e que também havia ocupado posições relevantes em algumas das principais instituições econômicas e sociais da cidade.

Um representante da praça de Santos

Na história da Associação Comercial de Santos, a importância de Esaú Silveira não deve ser medida apenas pela duração de sua presidência. Sua atuação começou antes da chegada ao cargo e prosseguiu depois de deixá-lo, sempre relacionada às grandes questões econômicas que envolviam a cidade. Nos primeiros anos da década de 1930, quando Santos enfrentava os efeitos da crise do café e precisava acompanhar de perto as decisões tomadas pelo governo federal, Esaú esteve entre os dirigentes escolhidos para representar a praça santista. Participou de negociações no Rio de Janeiro, acompanhou questões relacionadas ao porto e à tributação, envolveu-se diretamente na política cafeeira e levou as reivindicações da Associação Comercial aos centros de decisão do país.

Sua passagem pela ACS pertence, assim, a uma etapa em que a instituição desempenhava papel fundamental na articulação entre Santos e o governo federal. A cidade dependia do porto, o porto dependia do comércio internacional e grande parte desse comércio permanecia vinculada ao café. Nesse cenário, a Associação Comercial precisava de dirigentes capazes de compreender essa complexa relação e defender os interesses locais diante das transformações econômicas e políticas que ocorriam no país. Esaú Silveira foi um desses homens, e sua trajetória entre a Associação Comercial, o Centro dos Exportadores, a Sociedade Humanitária e o Internacional de Regatas ajuda a compreender a importância das instituições santistas na organização econômica e social da cidade durante as primeiras décadas do século XX.

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