A Crise da Sacaria de 1946 e o protagonismo da Associação Comercial de Santos

Crise de abastecimento que ameaçou paralisar os embarques de café em 1946 mobilizou a Associação Comercial de Santos, que articulou governo e indústria para garantir o fornecimento regular de sacaria e preservar a estabilidade da principal praça exportadora do país.

A década de 1940 ainda respirava os efeitos da Segunda Guerra Mundial. O comércio internacional se reorganizava, as cadeias produtivas sofriam com oscilações e gargalos, e o Brasil, fortemente dependente do café como principal produto de exportação, via no porto de Santos o grande centro nervoso da economia nacional. Foi nesse ambiente que se instalou, em 1946, a chamada Crise da Sacaria, quando a escassez de sacos de aniagem e juta ameaçou paralisar os embarques do principal item da balança comercial brasileira.

A falta de sacaria não era apenas um problema logístico. Representava risco direto à credibilidade do comércio exportador, às receitas federais e à imagem do país no exterior. Em Santos, os estoques se esgotavam rapidamente, os embarques eram suspensos e empresas chegavam ao ponto de numerar cada saca utilizada, numa tentativa desesperada de administrar a escassez — situação que muitos classificavam como “desmoralizante” para a praça.

Diante do quadro crítico, a Associação Comercial de Santos assumiu a linha de frente. A diretoria recorreu diretamente ao presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, alertando que a crise ultrapassava o âmbito local e atingia em cheio a economia nacional. O apelo surtiu efeito imediato: o governo enviou a Santos o superintendente do Serviço de Economia de Fibras da CETEX, Nelson de Vincenzi, para negociar pessoalmente com a ACS e as fábricas de juta.

O encontro resultou numa solução histórica: ficou acordado que Santos passaria a receber uma quota mínima mensal de um milhão de sacos, produzidos pelas indústrias paulistas de aniagem, mediante assinatura de um acordo tripartite — Associação Comercial, setor industrial e representante do governo federal. O mecanismo buscava estabilizar o fornecimento, garantindo previsibilidade aos embarques e evitando novas rupturas na cadeia exportadora.

A ACS comunicou aos seus associados a vitória do movimento, esclarecendo ainda que a exigência de licença prévia para importação de sacos não traria entraves ao comércio, servindo apenas para fins estatísticos. Aparentemente, o cenário começava a se normalizar.

Mas o desdobramento político da crise ganharia novos contornos.

Pressões, acusações e defesa da autonomia da praça

Dias depois, críticas e acusações foram disseminadas em São Paulo por meio de declarações atribuídas ao coronel Hobson Coutinho, questionando a atuação da Associação Comercial de Santos no acordo firmado. Diante do ataque público, a ACS reagiu com firmeza, publicou comunicado oficial e classificou as referências como caluniosas, reiterando que toda a negociação com a CETEX havia sido realizada com aval direto da Presidência da República.

A situação culminou numa Assembleia Geral Extraordinária com ampla participação dos setores ligados ao comércio de café. O debate foi intenso. Parte dos exportadores defendia mudanças no processo de distribuição de sacaria; outros sustentavam que a comissão responsável vinha atuando com critério e equilíbrio.

O relatório apresentado pelo diretor Adail de Camargo Viana demonstrou, com dados estatísticos, que a crise estava ligada menos à suposta retenção de sacos e mais ao excesso de cafés destinados ao embarque e à demora na devolução de sacaria vazia. Em outras palavras, o mercado reagia à alta de preços tentando embarcar volumes muito superiores à capacidade de fornecimento.

Após discussões acaloradas, a proposta de reformulação do sistema foi rejeitada. A assembleia aprovou por maioria:

• apoio integral à Comissão Distribuidora de Sacaria
• voto de confiança à diretoria da ACS
• repúdio às acusações externas
• envio de telegrama ao presidente Dutra

No telegrama, a praça cafeeira foi enfática: denunciou a campanha de descrédito movida por “elementos estranhos ao comércio”, reafirmou a legitimidade histórica da Associação Comercial como órgão consultivo do governo e apelou para que fossem adotadas medidas urgentes para assegurar o fornecimento regular de sacaria.

O gesto consolidou a unidade do comércio santista em torno da instituição.

Intervenção federal e o plano definitivo de fornecimento

Em novembro, novas medidas foram anunciadas pela CETEX. Atendendo às reivindicações da ACS, o governo majorou o preço dos sacos de aniagem e determinou aumento de produção nas indústrias de juta, garantindo estímulos econômicos para que as fábricas ampliassem sua capacidade.

Ao mesmo tempo, foi estabelecido um esquema compulsório de quotas mensais, distribuídas entre as principais companhias produtoras — garantindo que Santos recebesse novamente o volume pactuado de um milhão de sacos por mês.

O plano previa ainda:

• fiscalização do cumprimento das entregas
• redistribuição de quotas em caso de falhas
• prioridade às entidades de classe nas aquisições

A Associação Comercial respondeu com gratidão institucional, reafirmando sua parceria com o Ministério do Trabalho e reforçando o compromisso em cooperar na distribuição interna.

Pouco a pouco, o abastecimento voltou aos níveis considerados normais.

A crise estava contida.

Mas não extinta.

Um problema cíclico — e uma liderança que se repetiu

Apesar das medidas adotadas, o fenômeno voltaria a ocorrer em março do ano seguinte, revelando o caráter estrutural do problema: o sistema de exportação dependia de uma cadeia de produção extremamente sensível a variações de mercado, ao ritmo dos embarques e às condições do pós-guerra.

Mais uma vez, a Associação Comercial de Santos assumiu a coordenação das negociações, articulou o diálogo entre governo, indústria e comércio e conduziu o processo até nova regularização do fornecimento.

Não era apenas uma questão econômica.

Era institucional.

A crise da sacaria demonstrou:

• o peso político da praça de Santos no cenário nacional
• a capacidade de mobilização da ACS
• o reconhecimento do governo federal à sua legitimidade
• a importância da mediação técnica e diplomática nas crises comerciais

Em meio à turbulência, a Associação Comercial de Santos reafirmou seu papel histórico de guardiã dos interesses do porto, da economia cafeeira e, por consequência, da própria estabilidade da balança comercial brasileira.

Mais do que resolver um problema de logística, a instituição consolidou sua condição de interlocutora estratégica entre o comércio, a indústria e o Estado — posição que seria reafirmada ao longo das décadas seguintes.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *