De Santos a Nagoya: quando o café ligava a cidade ao mundo


    Em fevereiro de 1953, uma pequena nota publicada no Boletim Semanal da Associação Comercial de Santos revelava, em poucas linhas, a dimensão internacional da atividade econômica santista. A empresa Kasho Co. Ltd., Nagoya Branch, instalada em Nagoya, no Japão, manifestava interesse em estabelecer contato com exportadores de café da praça de Santos. Era um anúncio simples, mas bastante revelador: o café santista continuava atravessando oceanos e aproximando mercados distantes.

    A informação aparecia na edição nº 250 do boletim, datada de 28 de fevereiro de 1953, em meio a notícias e estatísticas comerciais acompanhadas pela Associação Comercial. O interesse japonês pelo café brasileiro surgia poucos anos depois do término da Segunda Guerra Mundial, num período em que o comércio internacional buscava reorganizar seus fluxos e reconstruir antigas relações econômicas. Santos, por sua vez, permanecia como uma das principais portas de entrada e saída do comércio exterior brasileiro.

    Na mesma edição, outro dado ajuda a compreender a escala dessa movimentação. O boletim apresentou o resultado das transações de câmbio realizadas durante o mês de janeiro na Bolsa Oficial de Valores de Santos. Convertidos para a moeda nacional, os negócios alcançavam a impressionante cifra de Cr$ 1.050.539.656,00, ultrapassando a marca de um bilhão de cruzeiros em apenas um mês.

    A relação das moedas negociadas também fornece uma espécie de mapa das conexões comerciais de Santos naquele começo dos anos 1950. Apareciam no quadro libras, francos, coroas, escudos e diferentes modalidades de dólares, associados a operações envolvendo mercados da Europa, das Américas e da Ásia. Japão, Portugal, Alemanha, Itália, Chile, Uruguai, Espanha, Áustria e outros países figuravam naquele universo de transações, mostrando como a economia santista estava profundamente vinculada ao comércio internacional.

    O Porto de Santos era, naturalmente, a grande engrenagem desse sistema. Mas os documentos da Associação Comercial revelam que a atividade econômica da cidade não se restringia ao embarque e desembarque de mercadorias. Ao redor do cais existia uma complexa rede formada por exportadores, importadores, bancos, casas de câmbio, corretores, companhias de navegação, representantes estrangeiros e instituições que davam suporte às operações comerciais.

    A própria Associação Comercial de Santos desempenhava papel importante nessa estrutura. O mesmo boletim registrava a atuação de seu Departamento dos Exportadores de Café, responsável naquele momento por assuntos relacionados à renovação do registro de exportadores junto ao Serviço de Economia Rural do Ministério da Agricultura, envolvendo os portos de Santos, Paranaguá e Rio de Janeiro. A ACS não era, portanto, apenas um espaço de representação dos empresários locais: participava diretamente das questões administrativas e práticas ligadas ao comércio cafeeiro.

    É justamente essa combinação de grandes números com pequenas informações cotidianas que torna os antigos boletins da entidade fontes tão valiosas para a história econômica de Santos. De um lado, encontramos mais de um bilhão de cruzeiros movimentados em operações cambiais. De outro, algumas linhas anunciando que uma empresa de Nagoya procurava fornecedores santistas de café.

    Separadamente, parecem apenas registros comerciais. Reunidos, porém, contam uma história muito maior.

    Em 1953, quem circulasse pelos escritórios, armazéns e salas de negociação da cidade participava de uma economia cuja dimensão ultrapassava em muito os limites de Santos. Por trás de cada saca de café embarcada havia contratos, moedas estrangeiras, bancos, documentos, corretores e empresas situadas a milhares de quilômetros do porto.

    E talvez a pequena nota japonesa publicada naquele fevereiro seja uma das maneiras mais simples de resumir tudo isso: de um escritório em Nagoya, alguém procurava Santos.

    Porque, naquele tempo, quando o assunto era café, boa parte do mundo sabia onde encontrá-lo.

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